quarta-feira, 2 de abril de 2008

AMIN KONTAR: O Santo de Tarauacá


"Que o Castigo, se assim posso exprimir, fira tanto a alma como corpo". Michel Foucault

A História se passou em Tarauacá, na então chamada Vila Seabra.

Na terra que me viu primeiro, uma bárbara injustiça aconteceu.

Se Michel Foucault tivesse conhecimento desta punição, com certeza teria incluído em seu livro Vigiar e Punir, que conta a história da insanidade do homem na apuração dos fatos criminosos.

Foi nos idos de 1918. Um jovem descendente de turco - segundo os mais velhos, um belo jovem - passava em frente a casa do prefeito de Tarauacá, quando viu a casa do Intendente Cunha Vasconcelos pegando fogo, que depois se soube, foi devido a explosão de uma dinamite. Logo se assustou com gigantes labaredas, e sai correndo, desesperadamente, do local, talvez já profetizando o que poderia acontecer.

Não custou muito para que algumas pessoas, querendo agradar e se aproximar da corte, apontassem o jovem AMIN KONTAR como o autor do incêndio.

O prefeito tratou de punir o suposto criminoso, e em conluio com o delegado e o chefe de polícia perpetraram as mais cruéis torturas contra o jovem, que sabiam ser inocente. Na verdade, o incêndio criminoso tinha como autor um rival político do prefeito, mas a punição de AMIN KONTAR serviria para mostrar a todos o poder daqueles que mandavam.

AMIN KONTAR foi colocado amarrado dentro de uma rede na delegacia, entre duas espadas afiadas, e a cada embalo, uma furada de cada lado em seu corpo e em sua alma de inocente.
Andou por cima de ferro quente, teve as unhas dos pés e das mãos arrancadas com alicate, e seu corpo, já em estado deplorável, foi arrastado e exibido pelas ruas da Vila Seabra, puxado por um cavalo, em um suplício público.

AMIN KONTAR é considerado um santo em Tarauacá, devido a sua morte como inocente. Sua tumba é a mais visitada, a mais prestigiada e a mais respeitada do cemitério da nossa cidade. Milagres acontecem por interferência deste santo popular.

Claro que não é um santo reconhecido pela Igreja Católica, mas não importa, o povo o canonizou. Diariamente pessoas vão ao seu túmulo e depositam flores, óculos, fraudas, camisas, lençóis, todo tipo de objeto, dependendo da natureza do clamor que se faça a ele.

AMIN KONTAR, o santo de Tarauacá, o padroeiro dos inocentes perseguidos.

2 comentários:

Luiz disse...

Dr. Sanderson, sou acadêmico de Direito da UFAC, tarauacaense como vossa excelência, e o que me orgulho mais....SOU FÃ DOS BONS ADVOGADOS CRIMINALISTAS. Logo, nem preciso falar o apreço que tenho por vosso trabalho.
Um dia desses, encantadamente, assisti a uma defesa sua no tribunal do júri, onde vc falou da história de Amin...afirmando que tinha consigo os autos desse processo, com todo respeito e curiosidade de estudante, gostaria de ter em meus arquivos uma cópia desses autos!
Caso o senhor, como grande sábio que és, esteja disposta a compartilhar desse conhecimento.
De ante mão quero parabenizá-lo por sempre que pode reporta-se a nossa Tarauacá com grande apreço...!!

Francisca disse...

Sou professora, nasci, cresci e vivo até hoje em Tarauacá, sempre ouvi falar dessa história e confesso que achava um pouco absurda, talvez porque a história nunca tenha sido contada com tanta veracidade.
Parabéns pelo belo texto, recheado de informações.