sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Paixão e originalidade na oratória

"Só os comunicadores originais se destacam. O cérebro não consegue ignorar a originalidade", diz Carmine Gallo, no livro TED: Falar, Convencer, Emocionar. Além de original, segundo o autor, o orador precisa ser um apaixonado pelo que fala; tem que vibrar, envolver o público, viver sua mensagem. 

Além de original e envolvente, precisa o orador encontrar formas sempre novas de dizer sua mensagem e torná-la memorável na lembrança dos seus ouvintes; a mesmice cansa, desconcentra o ouvinte, desvaloriza o orador e sua mensagem.

Diz Carmine Gallo que "o mundo está faminto de ideias originais e de pessoas que saibam transmiti-las de maneira atraente". Este é um livro rico, moderno, original, impactante, capaz de transpor a oratória daqueles que assimilarem sua mensagem da zona da mediocridade para os cumes mais elevados da genialidade.

Viva e atual sofística

Estudar a vida e as ideias dos sofistas - os grandes oradores, educadores, advogados, filósofos e políticos da Grécia Clássica - é aprender, ao mesmo tempo, a arte de bem falar, a arte de ensinar, a arte de liderar, a arte da política e a arte de pensar com lógica e elasticidade dialética. 

Homens inteligentíssimos, intelectuais livres e portadores de convicções firmes e corajosas, os sofistas transformaram a Grécia num enorme e qualificado auditório, onde ensinavam, com maestria, a retórica à juventude, mostrando-a, por meio da palavra sofisticada, o caminho da virtude, do sucesso e do poder. 

No livro Sofista, de Giovanni Casertano, de fácil e agradável leitura, podemos sentir a vivacidade e a atualidade desta grande escola chamada Sofística que ensina, além do bem falar, também o bem viver.

Morais perigosas

Bela, inteligente, grande filósofa, exímia oradora de Alexandria do século IV a. C., Hypátia foi perseguida e apedrejada dentro de uma igreja por fanáticos judeus e cristãos, os mesmos que, juntamente com os muçulmanos, queimaram e destruíram a Biblioteca de Alexandria, a maior do mundo antigo, com quase um milhão de livros, e que reunia todo o saber escrito da humanidade, inclusive da desaparecida Atlântida. 

De vez em quando, vejo alguém dizendo que devemos resgatar a moral judaico-cristã. Nós precisamos da moral que nasce da liberdade do pensamento, da consciência universal; não precisamos de nenhuma moral que nasce do moralismo ou de dogmas religiosos ou de artigos de fé. 

O mundo precisa de fraternidade, e a fraternidade só pode ser construída e iluminada pela tolerância, pelo respeito e pela convivência sincera balizada em firmes valores universais. As fogueiras, as cruzadas, as guerras santas, os index, as inquisições, são coisas que parecem pertencer ao passado. Vivemos sob o ataque do obscurantismo. 

Os homens e as mulheres livres, a exemplo de Hypátia, devem vigiar e reafirmar seu compromisso com a liberdade, com a democracia, com a razão, com a tolerância e com o humanismo - é por esse caminho que podemos construir uma civilização da luz.

Orador universal

A oratória é um saber vasto. Assimila com facilidade tudo o que os outros saberes possam lhe oferecer com implicações na arte de falar bem. Só para ilustrar, as descobertas no campo do cérebro tem sido muito útil aos comunicadores: provas científicas apontam para o efeito persuasivo, no cérebro dos ouvintes, do ato de falar com vibração ou contar histórias. Disciplinas como Psicologia e Filosofia têm grande repercussão numa boa oratória. 

Cris Anderson nos revela, em seu livro TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar Bem, o segredo do filósofo para a arte da oratória. Para Anderson, o futuro reserva uma grande vantagem para os comunicadores que não se apequenam, que transcendem, em suas ideias, os meros interesses egoístas, nanicos ou grupais. 

O orador poderoso será aquele que for portador de uma mensagem mais ampla, mais universal, que não viola a razão, a ciência, os fatos, as provas, a inteligência do público - um orador comprometido com a verdade e com o progresso da humanidade: eis o segredo do filósofo para ser tornar um grande orador.

Discursos demolidores

Seus livros foram queimados em praça pública. Ele foi acusado de ateísmo e de corromper a juventude - as mesmas acusações proferidas contra Sócrates anos mais tarde. Pressionado para fugir de Atenas, morreu num naufrágio próximo a região da Itália aos 70 anos. 

Era amigo íntimo do grande estadista Péricles, e gozava da admiração do jovem Sócrates, que o achava o homem mais belo da Grécia devido a sua grande eloquência e presença de espírito. 

Em um dos seus livros, Discursos Demolidores, coloca o homem no centro do debate político e filosófico, ao mesmo tempo que questiona os portadores das falsas verdades absolutas: "Ántropos métron pánthos", "O homem é a medida de todas as coisas; das coisas que são como são e das coisas que não são como não são". 

Faz desta poderosa premissa, influenciado por Heráclito e Demócrito, a base sólida de sua filosofia e de sua imbatível oratória. No livro Dos Deuses, numa época em que não acreditar neles era crime, diz Protágoras, o mais velho e mais célebre dos sofistas: "Sobre os deuses, não sei se existem ou não existem. O tema é muito difícil e obscuro, e a vida é breve para perder tanto tempo nessas indagações". 

Um homem de ideias atualíssimas, num mundo onde tantos querem ser portadores de verdades absolutas e inquestionáveis, onde tantos querem impor aos outros suas crenças, seus deuses, seus ídolos, sua fé, sua maneira de ser e de pensar.

Novas valorações se põem em marcha

"Novas valorações se põem em marcha". Verdades de ontem foram superadas por verdades de hoje, que por sua vez serão superadas por verdades do amanhã. E a vida continua sua incessante e dialética imutável mutação.

 Se tornam ultrapassados aqueles que não entendem a frase de Nietzsche de que sempre "novas valorações se põem em marcha". 

Seja na ciência, seja na religião, seja na filosofia, seja na política, seja na oratória, seja no direito, seja na nossa vida pessoal, "novas valorações se põem em marcha", num eterno e benfazejo fluir.

A primeira regra para a orientação do espírito

A maioria das pessoas quer dá opinião em tudo; nos mais das vezes essas opiniões são equivocadas, parciais, preconceituosas, superficiais e interesseiras. 

Mas será que essas pessoas estão dispostas a conhecer, a estudar profundamente o assunto para formar juízos sólidos e verdadeiros? 

Eis a primeira e a fundamental regra de um homem honesto e de ciência segundo Descartes, em seu livro Regras para a Orientação do Espírito.

A pura luz da razão

O filósofo Descartes escreveu no seu livro Regras para a Orientação do Espírito: "Não há nada que se possa acrescentar à pura luz da razão".

Na pura luz da razão está contida a ciência, a eloquência, o amor, a paz, a bondade, a presença de Deus. Quando Aristóteles ensinava oratória para Alexandre, sempre dizia: "Alexandre, a referência da arte de falar bem é a razão". 

Eis porque devemos tanto conhecer, sentir e desenvolver a pura luz da razão que há em potência dentro de cada um de nós.

Duplo orador

Shakespeare disse que "todo orador faz dois discursos ao mesmo tempo: o que é ouvido e o que é visto". 

É ilusão o orador pensar que se esconde do público. Se tivermos coerência, honestidade, transparência, convicção, nosso discurso será um só, poderoso e convincente, pois a atenção do ouvinte não estará perturbada e dispersa julgando as contradições entre o que o orador diz e o que a sua linguagem corporal desdiz.

Pensando como um grego

Entender os fenômenos desde a raiz, desde a origem é um diferencial na qualidade do conhecimento. Conhecer as origens racionais, lógicas, científicas do pensamento grego é conhecer ao mesmo tempo o nascimento da própria oratória, da própria democracia, do próprio direito, da própria civilização grega - estrutura primeira do mundo Ocidental. 

O nascimento da pólis marca um momento decisivo na formação racional do pensamento grego. E é no espaço da pólis que a palavra ganha extraordinária preeminência frente a todas as outras ferramentas de poder; segundo o autor, "torna-se instrumento político por excelência, a chave de toda a autoridade no Estado, o meio de comando e de domínio sobre o outrem". Tanto poder foi atribuído a arte de falar bem que os gregos farão dela uma divindade: Peithós, a força da persuasão.

Este livro de Jean Pierre Vernant, As Origens do Pensamento Grego, solidifica e abrilhanta o cérebro e a oratória do homem que busca conhecer os primórdios da perene forma grega de ver o mundo, o cosmos, a sociedade, a cultura, a política, a vida, a si mesmo

Lógica: a virtude intelectual por excelência

A logica é a virtude intelectual por excelência. Podemos defini-la - embora existam muitas perspectivas conceituais diferentes - como a ciência do pensamento correto que visa demonstrar ou descobrir a verdade.

 Todos nós somos portadores de uma lógica natural que chamamos de bom-senso. Podemos desenvolver este potencial lógico, que nos é inerente, por meio do estudo, da reflexão, da leitura, da meditação e da prática. 

Foram os gregos os descobridores da lógica. Lógica vem da palavra lógos (razão) e a ela podemos associar muitas outras palavras: coerência, medida, clareza, comprovação, justeza, convencimento, não contradição, dedução, ordem etc. 

Sem lógica o orador é um porta-voz da confusão mental. A lógica é um dos pilares estruturantes da ciência, da filosofia, do direito, da arte de falar bem e da arte de escrever bem. 

O homem persuasivo fala com vibração, com paixão, com entusiasmo, tendo sempre a lógica por norte seguro e regulador.. Dizem que existem coisas além da lógica; mas claro, isso é lógico! 

O orador não se desenvolverá se ele afrontar, desprestigiar, desvalorizar a lógica. O ouvinte não entregará o seu coração se perceber mentira, incoerência, confusão, contradições no raciocínio do orador. 

Nossas crianças só desenvolverão sadiamente o pensamento lógico - que já trazem em potencial ao nascer, como dom de Deus - se puderem ver em seus educadores - pais, professores, líderes, oradores - pessoas lógicas, comprometidas com a verdade, comprometidas com a exatidão do pensamento, sensíveis o suficiente para ver a importância, o poder, a beleza e a origem divina da lógica.

As três grandes virtudes

Hípias, um dos mais destacados sofistas gregos, ensinava que "todo homem deveria desenvolver em si três grandes virtudes: viver corretamente, expressar-se com excelência e ser eficaz em suas ações".

À maneira dos gregos

A oratória é uma ciência que renasce, uma arte que rebrilha na modernidade; prova disso é a Escola de Atenas que congrega em seu meio pessoas de várias idades, de vários graus de instrução e de diversas áreas do conhecimento, que se reúnem ao ar livre com o objetivo de estudar oratória com filosofia à maneira clássica. 

É bonito ver como todos estão aperfeiçoando sua capacidade de expressão verbal a cada encontro, e se sentindo mais confiantes para expressar suas ideias com lógica, assertividade, ética, naturalidade e vibração.

A oratória e a filosofia da realização pessoal

Grande é oratória e a filosofia contida nas ideias de Napolleon Hill. 

A mensagem deste grande líder e orador continua a inspirar e a motivar muitas pessoas ao redor do mundo na busca do sucesso, da felicidade, da paz de espírito e da riqueza em suas múltiplas dimensões. 

Como ele mesmo diz, "as 17 leis do triunfo tem a capacidade de elevar o homem aos mais altos graus da eloquência".

O poder da harmonia na oratória

Diz Napolleon Hill "que sem a harmonia não pode haver música, poesia ou oratória dignas de nota". O que tem a ver a harmonia com a oratória? 

Os gestos, as palavras e as ações do orador devem ser harmônicos. Os fatos devem ser narrados com harmonia. A argumentação deve ser desenvolvida com harmonia. Deve haver harmonia entre orador e plateia. Deve haver harmonia no ambiente onde o orador proferirá sua oratória. Um orador em harmonia consigo mesmo irradia um poder de persuasão antes mesmo de proferir suas palavras. 

É da natureza da arte, é da natureza da ciência - e a oratória é arte e ciência - a manifestação da harmonia. É só com a harmonia que a oratória pode ser um instrumento capaz de manifestar o belo, o bom, e o justo. 

Apolo pode muito bem ilustrar esta frase de Napolleon Hil, pois era o deus da poesia, da música e da eloquência; sua presença irradiava luz, poder, carisma e harmonia.

Os gregos foram homens de personalidade forte

Os gregos foram homens de personalidade forte. E homens de personalidade forte têm vocação para a liderança e para a oratória. Um desses homens foi Zenão de Eleia, um filósofo pré-socrático, criador do método da dialética - da arte de argumentar com flexibilidade diante de ideias opostas.

 Essa sua capacidade retórica a todos maravilhava. Amante da liberdade e da democracia, organizou uma conspiração contra o tirano de sua cidade. Ao ser descoberto, foi preso e torturado, e para não entregar seus companheiros, cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu na face do tirano. 

Há nisso tudo grandes lições, e isso mostra porque as ideias e os exemplos desses homens continuam a atrair, comover e inspirar as gerações que se sucedem.

Aprenda a arte de responder uma pergunta com outra

Há uma instigante frase de René Descartes na capa deste livro: "Aprenda a arte de responder uma pergunta com outra". A isso nós chamamos de pergunta retórica, um poderoso instrumento de argumentação e persuasão, quando utilizado com propriedade, habilidade e inteligência. 

Os ouvintes não gostam quando o orador faz perguntas bobas com respostas óbvias, principalmente quando o público é constituído por pessoas mais cultas. 

Visa a pergunta retórica responder implicitamente ao que foi indagado com outra pergunta, que já contém em si a resposta. O orador economiza tempo e torna sua oratória breve e inteligente por não ter que explicar todos os passos que levariam a uma conclusão lógica de sua proposição.

 Darei um exemplo. A pergunta: "O homem pode mudar o seu merecimento?" Segue a resposta por meio de perguntas retóricas: "Qual o merecimento que aguarda um homem sem objetivo na vida?" "E se esse homem passar a ter um objetivo na vida, estaria aguardando ele o mesmo merecimento anterior? Pode ou não pode o homem mudar o seu merecimento?" 

Tudo isso é um breve exemplo do grande trunfo da arte de argumentar e de persuadir por meio de perguntas retóricas.

Fidel, a ditadura e a oratória

Conta-se que as pessoas, em "eletrizante atenção", ouviam Fidel Castro falar por três ou quatro horas seguidas. 

Numa ditadura isso não é lá nenhum grande feito. Será que numa democracia isso seria tão fácil assim, onde as pessoas tem o direito de sair da sala e ir embora? 

Ninguém aguenta prolixidade. "Seja breve e agradarás", dIziam os romanos.

Habilidade com as palavras e eficácia nas ações

Deve ser a missão de quem quer ser um verdadeiro orador entender a oratória desde o seu nascimento; entender a sua trajetória até os dias atuais; seus fios interconectados com a filosofia, com a poesia e a literatura, com o direito, com a mitologia, com a política, com a história, com o transcendente. Conhecer seus grandes representantes, suas grandes ideias, seus grandes feitos. Ter da oratória um conhecimento sólido, vasto, íntimo. 

A oratória renasce nos dias atuais; a arte antiga tem ganhado um novo impulso pelo mundo, e nós aqui no Acre, estamos acompanhando esse novo despertar por meio da Escola de Atenas, que ensina oratória de um jeito original, ligada à antiguidade clássica e às modernas ideias sobre a arte de bem falar. 

Este livro, Breve História da Retórica Antiga, de Armando Plebe, cumpre um papel relevante na formação do orador. Um dos registros mais antigos do valor do ensino da oratória está narrado em Ilíada, livro de Homero, que conta a Guerra de Tróia, ocorrida por volta de 1.200 anos a.C. Narra-se que, Peleu, o pai do jovem Aquiles, deu como professor e amigo ao filho, Fênix, para que este ensinasse o famoso guerreiro a arte da "hábil palavra e a capacidade para realizar façanhas". 

E modernamente, ao renascer a nobre arte da retórica, renascem juntos os homeros, os peleus, os fênix, os aquiles, em todos os lugares onde existem homens e mulheres cultores da bela arte.

Oratória e filosofia antiga

Eis uma das disciplinas mais fundamentais, História da Filosofia Antiga, para a construção de um orador culto e de talento. 

Já dizia Cícero, em Roma: "Não se faz um verdadeiro orador sem filosofia". Já dizia Platão, na Grécia: "A única oratória digna dos deuses é a oratória com filosofia". 

"Ensinando oratória com filosofia" é o método, o objetivo e o lema - lema é uma palavra de origem grega que significa 'uma ideia recebida como presente' - da Escola de Atenas.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Crise: tempo de oportunidades e de decisão

A palavra crise, em chinês, também significa oportunidade; em grego, decisão, atitude. 

O que fazer diante da crise? Ficar parado, inerte, lamentando as coisas? Sabemos que tudo passa. E quando a crise passar? Fizemos algo, trabalhamos, agimos, aproveitamos as oportunidades? O que plantamos durante o tempo da crise? O que teremos para colher quando a crise passar? 

São perguntas que mudam um destino, e que precisamos fazer a nós mesmos.

Paideia

Esta é uma monumental obra do intelecto humano, de autoria de Werner Jaeger, Paideia, A Formação do Homem Grego. 

São quase 1.500 páginas mostrando o ideal grego de formação do homem superior: nobre, virtuoso, livre, belo, inteligente, integralmente bem desenvolvido em todas as suas faculdades do corpo e da alma.

 No centro desse ideal, uma palavra, "areté", excelência, o divino florescendo no homem, ou o homem fazendo parte da sociedade dos deuses.

Aprendendo oratória lendo os elevados Diálogos de Platão

Disse Tácito, historiador romano, no livro Diálogos dos Oradores, que Cícero, o grande advogado, político e tribuno da Roma Antiga, falava que aprendeu oratória mais lendo os elevados Diálogos de Platão do que estudando na escola dos professores de retórica. 

Em suas Catilinárias, conjunto de discursos contra o conspirador Catilina, obra-prima da história da eloquência universal, Cícero introduz a sua poderosa acusação, com a famosa frase, que parece ecoar pelos tempos, todas as vezes que a pronunciamos: "Até quando, Catilina, tu abusarás de nossa paciência". Em latim, ecoa ainda mais forte: "Quosque tandem Catilina abutere patientia nostra".

Os deuses que não morreram

O livro Os Deuses que não Morreram: Ensaios de Cultura Grega, de autoria de Heber Salvador de Lima, é uma excelente obra de introdução ao estudo dos legados que a Grécia Antiga nos deixou no campo da filosofia, do teatro, da escultura, da poesia e da literatura homérica. 

O autor conta como se emocionou completamente ao visitar a Acrópole de Atenas pela primeira vez em 1956: "Tive ali a sensação de imortalidade do gênio grego que aprendi a reverenciar. Senti a exultação de uma Grécia que se recusa a morrer, de uma Grécia eterna. Senti um júbilo interior, senti os abraços e o acolhimento da Mãe -Atenas, a grande cidade-mãe do Ocidente; foi então que percebi que eu era um dos muitos filhos da Hélade espalhados pelo mundo". 

E continua o autor dizendo: "Ignorar os valores gregos que permeiam a cultura ocidental é uma declaração implícita de pobreza intelectual. Este livro quer lembrar que os grandes valores gregos ainda estão vivos. Eles são os Deuses que não Morreram". E diz uma frase que eu acho lapidar: "A crise moderna é, em grande parte, um esquecimento da sabedoria grega".

O poder retórico da língua grega: concisão e profundidade

"O grego é uma língua concentrada. O que em grego se dizia em uma palavra, em latim se precisava dizer em duas ou três", assim fala o professor Amilcare Carletti, autor da obra Grandes Oradores da Antiguidade: Cícero e Demóstenes."Os antigos gregos falavam de forma densa e breve.

Esta qualidade tinha dois aspectos: síntese e autodomínio. Ao primeiro devemos a capacidade de condensar o pensamento e exprimi-lo em tantas palavras quantas bastem, sem mais nem menos. O segundo combate a tentação da verbosidade, sem amplificações desnecessárias.

Foi desses dotes que nasceu o epigrama, frases curtas, concentradas e profundas na maneira dizer as coisas", diz Heber Salvador de Lima, em Os Deuses que não Morreram: Ensaios de Cultura Grega.

"Para os gregos aristocratas do período clássico quem levasse a sério a língua grega eliminaria a ocorrência de elementos infantis e exagerados na forma de falar", aponta Thomas Cahil no seu livro Navegando no Mar de Vinho: Por que a Grécia é Essencial Hoje?

Os textos acima apontam para duas importantes qualidades que um orador precisa trabalhar: concisão e profundidade.

Orador: filósofo, poeta e ator

Conta Hélio Sodré, em seu livro História Universal da Eloquência, que Demóstenes, o grande orador grego, dizia: "Honro tanto o povo de Atenas que não me atrevo a aparecer diante deles com palavras superficiais". 

Quantos oradores não honram seu público, quantos palestrantes não honram seus ouvintes! Lembro-me que em uma palestra que ministrei, assim iniciei meu discurso fazendo referência ao que disse Demóstenes: "Honro tanto este convite que me foi feito, e honro tanto a presença de todos vocês que não me atreveria a estar aqui sem antes ter me preparado, sem antes ter pesquisado o assunto, sem antes ter me dedicado de corpo e alma ao tema que aqui desenvolverei". 

E comecei a falar das virtudes do orador, e mais uma vez recorri a Hélio Sodré: "O orador perfeito deve reunir as qualidades do filósofo, do poeta e do ator. Poeta, filósofo e ator, eis aí, realmente, do que se compõe a personalidade do homem eloquente. Poeta para deleitar e comover, falando ao coração e ao sentimento. Filósofo, para instruir e convencer, falando à razão e ao entendimento. E ator, para dar vida e vigor às suas palavras, sejam elas dirigidas ao cérebro ou ao coração".

Apoteose de Homero

Pintura: Apoteose de Homero, 1826, de Jean Auguste Dominique Ingress. 

A deusa Vitória coroa Homero nas escadarias de um templo grego. Homero, autor de Ilíada e Odisseia, obras representadas pelas mulheres a sua frente, está rodeado de filósofos e sábios antigos e modernos, herdeiros de sua genialidade, que lhe prestam reverência. 

Homero é considerado o poeta maior, o pai dos oradores e o educador de toda Grécia.

Falando grego

"Tá falando grego", é uma expressão que é usada para se referir à comunicação confusa de alguém. 

Isso soa um pouco impróprio, pois um dos grandes legados da Grécia Antiga ao mundo foi a oratória, a arte de bem falar.

 Então, deveria ser exatamente o contrário: quando alguém estivesse falando com clareza, com lógica, com razão, deveríamos dizer com alegria: "Tá falando grego".

Dialética: a razão em exercício

Os antigos sofistas ensinavam que a dialética é a "ratio in exercicio", é a razão trabalhando, é a razão em movimento, é a razão procurando a melhor expressão da verdade.

A palavra dialética, em sua origem etimológica, significa a capacidade para expressar ideias e palavras com lógica, com  largueza e flexibilidade do intelecto.

 Daí já dá pra perceber que a argumentação dialética não é vocação para quem tem mente fechada, rígida e inflexível; mentes assim não são chamadas para desbravar o mundo da oratória nem o mundo da filosofia.

(O quadro que ilustra o texto é uma pintura do século XIX, intitulada O Sofista)

As eloquentes lições do poeta Píndaro

"Homem, torna-te quem és", dizia o grandiloquente poeta grego Píndaro. Como posso me tornar o que já sou? Tornar-me implica algo que ainda não sou. Mas é só quando nos tornarmos o que já somos é que saberemos que sempre fomos o que já somos.

Há outra sentença de Píndaro que diz: "A resignação é um suicídio cotidiano". Tem coisas que precisamos da resignação, mas tem outras que resignar-se significa viver uma vida de mediocridade.

E por derradeiro, outra máxima do poeta: "O dia precedente é mestre do dia seguinte". É vivendo e aprendendo, é cometendo erros que podemos acertar, é com nossas experiências do hoje que podemos viver melhor o dia de amanhã.

De Píndaro, disse Quintiliano, o grande mestre da retórica latina: "Píndaro é o incomparável mestre do lirismo. Inimitável em grandiosidade, na sabedoria das máximas, nas figuras de linguagem e na torrente caudalosa de sua eloquência".

Empédocles: oratória brilhante e personalidade forte


Todo grande orador é um homem de personalidade forte, mas nem todo homem de personalidade forte é um grande orador. 

Nos estudos da história da oratória não encontramos nenhum grande orador de personalidade fraca. Aristóteles considerava o filósofo Empédocles o pai da retórica, porque Empédocles foi mestre de Córax de Siracusa, e este, influenciado pelo seu mestre, escreveu o primeiro tratado de retórica que se tem notícia, Tekné Retoriké. Empédocles também foi mestre de Górgias, o grande sofista grego.

 O que tem a ver tudo isso com a tese de que todo grande orador é um homem de personalidade forte? Tem tudo a ver, pois as características mais marcantes de Empédocles foram duas: personalidade forte e oratória brilhante. Na própria raiz da história da arte de falar bem encontra-se a presença de homens de personalidades marcantes.

Defender com igual excelência teses opostas

Além de grandes oradores, os sofistas também eram exímios escritores; eles escreviam discursos para que as partes lessem nos tribunais e nas assembleias, por isso eram chamados de logógrafos - aqueles que elaboravam discursos escritos.

 Às vezes um mesmo logógrafo escrevia com excelência as razões de ambas as partes de uma mesma demanda. Para esses grandes professores da arte da palavra nenhum aluno poderia se considerar preparado se não fosse capaz de defender e atacar uma mesma tese com igual competência, pois só assim era possível o discípulo provar que tinha adquirido os recursos da dialética e desenvolvido os poderes da argumentação.

Firmes na marcha dos séculos

Nesse mês comemoramos também o Dia do Advogado, profissão que teve origem na Grécia Antiga. 

Sólon, legislador e jurista grego, um dos Sete Sábios da Grécia, no século VI a. C., decretou uma lei determinando que para ser advogado o homem deveria saber falar, ser livre e ser honesto. A advocacia tem raízes nestes belos valores. Não é uma profissão para escravos, desarticulados e desonestos.

 Que todos os advogados possam seguir firmes na marcha dos séculos honrando a nobreza e a antiguidade desta profissão, que é filha ilustre da liberdade, que é irmã gêmea da democracia, que é mãe guerreira do humanismo.

O domínio do léxico

Léxico é o conjunto das palavras de uma língua, de um lugar, ou de uma determinada área do saber. 

Este livro, Léxico da Filosofia Grega e Romana, de Giovanni Reale, é um rico acervo das palavras filosóficas da antiguidade. 

Destaco duas destas palavras, muito usadas pelos seguidores do filósofo Pirro, que viveu na Índia por 10 anos, e que muito aprendeu com sábios hindus, traduzindo aqueles ensinamentos para a linguagem grega: "ataraxia" (imperturbabilidade dos sentimentos) e epoché (suspensão dos julgamentos, opiniões, pensamentos, ausência de perturbação na mente). 

Quando o homem domina o léxico de sua língua, e quando, somado a isso, têm a alma, a mente e o coração imperturbáveis, calmos, o filósofo, o orador, o líder, alcança um alto poder de percepção da verdade e um alto poder de argumentação e transmissão persuasiva desta verdade.

Comunicação na Grécia Antiga

Comunicação na Grécia Antiga: Reflexões para a Mídia do Século XXI, do professor Roberto C. G. Castro, doutor em filosofia pela USP, é uma obra ímpar; dedicou-a aos seus alunos "na esperança que os gregos antigos inspirem sua trajetória profissional".

Além de mostrar a origem e o cultivo da oratória pelos gregos, desde os eloquentíssimos personagens da Ilíada e da Odisséia, o professor Roberto vai traçando, ao longo da obra, uma série de lições preciosas de grandes pensadores gregos sobre a arte da comunicação. 

Com os fundadores da retórica, Córax e Tísias, podemos aprender que a oratória deve ser racional, objetiva, baseada em provas e demonstrações. 

Com os oradores pitagóricos podemos aprender a tornar a palavra cativante, sedutora, mágica. Com os sofistas podemos aprender a perfeição da forma e a perícia na arte da argumentação. 

Com Sócrates e Platão podemos aprender que a oratória precisa ter filosofia, conhecimento, profundidade. 

Com Aristóteles podemos aprender que a ética, a honestidade, a credibilidade do orador é peça fundamental no processo persuasivo. 

Com Isócrates podemos aprender que a oratória deve estar a serviço da educação e da formação do homem-cidadão. 

Com Demóstenes podemos aprender a colocar a oratória acima de nossos interesses particulares; ela deve estar à serviço da liberdade, da democracia e da união entre os povos. 

Terá uma oratória de alta qualidade, de alto impacto, de alto poder, o orador que souber reunir em si mesmo as ideias inspiradoras desses grandes gênios da Grécia Antiga.

Espíritos de curto alcance

"Victor Hugo, gênio verbal inexcedível, comparou o tribuno ao semeador. Todos os cérebros são para ele campos, aos quais lança às mãos cheias, ideias, sonhos.

 Diz o velho poeta:

 'Uma palavra caída de uma tribuna cria sempre raízes em alguma parte. Dizeis: 'não é nada, é apenas um homem que está falando'. Espíritos de curto alcance! Dizeis que não é nada, e é um futuro que germina, é um mundo que desabrocha'".

 (Hélio Sodré in História Universal da Eloquência)

O Dia do Filósofo

Nesse mês de agosto foi comemorado o Dia do Filósofo. 

É um filósofo que é considerado o Pai da Retórica, Empédocles. 

Da filosofia nasce muitos saberes. 

E como diz o pensador brasileiro Huberto Rohden "todos temos potencial para sermos filósofos". 

Quem ama a sabedoria, o conhecimento, a virtude, a reflexão racional, é um filósofo.

Presente de grego e presente dos gregos

Precisamos diferenciar "presente de grego" e "presente dos gregos". 

"Presente de grego" é uma expressão que indica algo enganoso por trás de uma oferta.

É um dizer que surgiu decorrente da Guerra de Troia, quando os gregos ofereceram de presente aos troianos um enorme cavalo de madeira. Os troianos pensaram que aquilo era uma rendição e um reconhecimento da vitória de seu exército, tendo em vista que as tropas gregas simplesmente sumiram da região. O enorme cavalo foi levado para dentro dos portões da cidade, e durante toda a noite os troianos se embebedaram comemorando a vitória. Quando os troianos estavam dormindo, os gregos que estavam dentro do cavalo saíram e abriram os portões da cidade, que foi invadida pelo exército grego, chegando assim, ao fim, a Guerra de Troia, com a vitória grega. 

Já a expressão "presente dos gregos", é outra coisa, é o legado da Grécia ao mundo: a oratória, a advocacia, o júri, a democracia, os jogos olímpicos, a escola, o teatro, a filosofia, a rica e perene cultura helênica.

O silêncio e a oratória de Pitágoras

Qual o segredo da extraordinária eloquência de Pitágoras, filósofo grego do século VI a.C.? 

Qual o segredo de sua oratória mágica que encantava os jovens da cidade de Samos e de Crotona, e tocava a mente e o coração de seus ouvintes com palavras sublimes e profundas? 

Numa frase que ele mesmo dizia estava o segredo do poder de seu verbo: "Se o que tens a dizer não é mais belo do que o silêncio, então cala-te".

O dialético vê o todo

"Quem é capaz de ver o todo é um dialético; que não, não é". 

Com isso, Platão quer dizer que um bom argumentador, que um bom orador é aquele que é capaz de ver todos os ângulos de uma questão. 

É limitado o orador que se fecha, que só ver a tese que defende; é estreito, é dogmático - coisas incompatíveis com o bom debatedor, com o bom líder. 

Para poder ver o todo, o orador precisa estudar o tema, ter mente flexível, aberta e honesta diante das muitas possibilidades de visão de um mesmo assunto. 

Platão está falando de uma qualidade essencial da arte de falar bem com filosofia, desenvoltura e amplidão.

O curso do dizer

Discurso significa o curso do dizer. 

Curso do dizer implica direção, fluência, ordem, clareza, objetividade, concisão. 

Não discursa realmente aquele que fala confuso.

A musa da eloquência

Das nove musas da mitologia grega, Calíope é a primeira, a mais bela, a mais sábia e a mais influente de todas, por isso, a rainha das musas. 

É a musa da eloquência. Tem na cabeça uma coroa de louro, mostrando sua íntima ligação com Apolo, o deus da beleza, da sabedoria, da luz e da razão. Tem um semblante compenetrado e meditativo mostrando sua aguda percepção daquilo que é capaz de convencer, e que a tudo registra na tábua que leva em suas mãos. É dotada de califasia, califonia e calirritmia, ou seja, tem o dom da expressão correta das palavras, o dom da bela voz e o dom da harmonia no ritmo do dizer.

 Em outras representações artísticas carrega nas mãos os livros fundantes da educação grega, por ela inspirados: Ilíada e Odisseia, de Homero, Eneida, de Virgílio, e um outro livro, onde está escrito persuasão. Os romanos antigos a chamavam de 'Suade'. Aqueles que falam com carisma e magia, entusiamo e inspiração, falam movidos 'per-suade', pela deusa da eloquência, pela deusa da persuasão.

A luz dos helenos

Os gregos chamavam a si mesmos de helenos, e a sua pátria de Hélade, e a sua cultura de helenística. Ainda hoje o nome oficial da Grécia é República Helênica. Grécia é como os romanos a chamavam. 

Acredita-se que Heleno, descendente de Hélio, como os gregos denominavam o sol, foi o fundador da Hélade. A civilização grega sempre esteve ligada ao sol. A luz do sol brilhou na arte, na literatura, na oratória, na política, na arquitetura, na mitologia, de maneira inapagável. 

Essa luz precisa ressurgir, renascer, novamente brilhar em todos os campos do saber humano. A luz continua a iluminar sempre, como uma vela capaz de acender milhares de outras, mas se espera do homem a aproximação, o reconhecimento e a reverência à luz, a sofheía, em grego; palavra que gerou sofia, que gerou sabedoria.

Positividade e bom raciocínio

A negatividade prejudica o raciocínio. 

A persuasão tem a ver com uma atitude mental positiva. 

Diz Napoleon Hill, em seu livro Chaves para o Sucesso, que "um advogado pode por tudo a perder, mesmo sua causa sendo boa, se ele comparecer diante do juiz ou dos jurados com uma atitude mental negativa".

Já pude constatar isso por experiência própria: positividade traz força persuasiva; negatividade espanta o poder de convencimento do homem. Vale a pena investir na nossa capacidade verbal desenvolvendo nossa positividade.