segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A filmoterapia e um pouco da minha vida

Li, no jornal A Gazeta, de sábado, 23, o relato do médico Gilvan Almeida a respeito do Festival de Cinema de Gramado.

Gilvan foi um dos jurados populares que apreciaram os filmes apresentados naquele importante evento da cultura nacional, o que com certeza o fez com a maior competência e entusiamo, honrando o povo acreano.

O que me chamou a atenção foi o fato do doutor Gilvan receitar filmes como auxílio no tratamento de seus pacientes.

Lembro-me que antes de ser advogado criminalista, e mesmo antes de me formar em história, ainda adolescente, eu era apaixonado pelos filmes que envolviam julgamento. Fascinava-me a atuação dos advogados convencendo os jurados e lutando contra a maldade, no mais das vezes representado pelo promotor público, que só acusava visando alcançar algum cargo político.

A imagem de São Miguel derrontando Lúcifer, ou de São Jorge enfrentando o Dragão, representam bem a simbologia que navegava nos meus pensamentos. O Bem vencendo o Mal.

Aos dezesseis anos fiz meu primeiro júri, simulado, como advogado, paradoxalmente, de Fernando Collor, e venci. A beca que usei foi uma batina emprestada pelo Padre Humberto, pároco de Tarauacá, já falecido.

Encontrei minha vocação assistindo aos julgamentos nas telas. E profetizava para mim mesmo: "Quero ser advogado criminalista".

O destino empurrou-me, primeiramente, para fazer o curso de História, também uma paixão.

Quando terminei o curso ingressei, numa seleção difícil, no mestrado em História Oral, juntamente com Sávio Maia, Carioca, Sérgio Roberto, a professora Maria José, e tantos outros que tinham sido, inclusive, meus professores.

Despontou por essa época o filme O Advogado do Diabo, que impulsionou-me na mudança de rumo, embalando ainda mais meus sonhos.

Larguei o mestrado, quase na metade, recebendo uma saraivada de críticas.

Mesmo sem garantia alguma que passaria no vestibular, danei-me a estudar, dia e noite, freneticamente, por dois meses, em casa mesmo.

Era uma questão decisiva na vida. Se não passasse tinha perdido o mestrado, sem a contrapartida que esperava.

Graças a Deus passei. Formei-me e hoje sou advogado criminalista. Gravo todos os júris importantes que faço, talvez lembrando-me dos meus devaneios de adolescentes, vendo os advogados brilharem nas telas do cinema.

Hoje sou um colecionador de filmes de julgamento. Comprei recentemente O Processo de Joana de D´arc, de Robert Bresson, que reconstitui, cinematrograficamente, baseado nos autos do processo, a história dessa mística mulher, que sozinha, enfrentou os ferozes juízes do Tribunal da Santa inquisição.

Quando me sinto fragilizado na minha profissão recorro aos filmes de Tribunal, buscando ânimo, coragem, perseverança, carisma, e todas as virtudes indispensáveis ao criminalista. Depois, peço a Deus essas virtudes para continuar sempre firme no caminho da justiça.

Isso é filmoterapia. E o doutor Gilvan, como conselheiro da alma humana, sabe que existem outras formas alternativas de tratamento, não tão comuns, que auxiliam o homem a sair de seus labirintos mentais.

2 comentários:

Leandrius disse...

Magnanimo Sanderson, gostaria assim que possivel fazer uma cópia das suas atuaçoes no juri, quem sabe assim posso ao menos seguir suas pegadas, tambem me interessei por essa coleçao de filmes sobre juri... um grande meu amigo e idolo, muito sucesso nessa vida.

Sanderson Silva de Moura disse...

Obrigado pela palavra magnânimo. Gosto desta palavra porque significa grande de alma. Peço a Deus que um dia seja merecedor dela.

Tudo o que você pediu está a sua disposição.

Obrigado pelos votos de sucesso na vida. Todos nós temos esse direito.

Obrigado pela sua amizade, é uma das formas de riqueza.

Abraços.