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terça-feira, 14 de abril de 2009

Valdir Troncoso Peres: o meu grande inspirador

Não o conheci pessoalmente. Foi melhor assim.

Às vezes que eu fui a São Paulo ainda fiz algumas tentativas para conhecê-lo. Mas não foi possível. Já estava ele muito idoso para ir ao escritório - local que ele definia como o laboratório da alma humana. E eu não queria incomodá-lo no recanto de seu lar. Tinha um certo receio até, de o mito ser desfeito pela proximidade. Era melhor a distância.

Falei para o doutor Florindo, presidente da OAB do Acre que seria importante para a advocacia do nosso estado conhecer o grande criminalista, antes que ele morresse. Mas não foi possível também.

Quando ainda menino, em certa ocasião, ao sair alvoroçado de casa, à noite, para brincar na rua, apenas ouvi no Fantástico a notícia de que se enfrentariam num grande julgamento os maiores advogados do Brasil. Se escutei bem, a matéria afirmava que nenhum deles jamais tinha perdido um júri. Não sei se foi dito assim, mas entendi dessa maneira.

Tempos atrás, revivendo minhas memórias, para recordar um pouco mais de mim mesmo, lembrei-me desse episódio, e estudando a noticía da época descobri que se tratava do julgamento do famoso cantor popular Lindomar Castilho, acusado de matar sua mulher Eliana de Gramond.

O caso mobilizou o país, o movimento feminista se rebelava contra a tese da legítima defesa da honra, para muitos, o portal largo da impunidade que acobertava os matadores de mulheres, os valentões, os machões, os playboys.

Valdir Troncoso Peres na defesa, atuando contra a corrente: "Quem ama não mata". Márcio Tomás Bastos na acusação.

Eu tinha ao tempo em torno de oito anos de idade. Vejo aí a raiz, até onde pude chegar, de minha vocação como advogado criminalista. Nunca aquilo saiu da minha cabeça, fez morada no meu inconsciente, fiquei impressionado: "dois advogados que nunca perderam uma causa, enfrentando-se num julgamento". Não me interessei pelo resto, apenas ficou a mensagem e a imagem na mente. "Dois grandes advogados que nunca perderam uma causa, enfrentado-se num julgamento.

Que coisa grande, romântica, um sonho de menino. Dizia: "quando eu crescer quero ser igual a um desses caras..."

Valdir Troncoso Peres, o meu grande inspirador. Seus júris lindos, suas frases impactosas, sua voz trovejante, o mito, a genialidade, o maior orador de júri do mundo, a paranormalidade.

Li tudo a respeito dele. Nos livros, nas revistas, na internet. Apreciei cada discurso seu em diversas gravações que encontrei. Não me cansei de divulgá-lo, de aplaudi-lo, de reconhecê-lo como a maior autoridade de júri do país.

Tudo o que falava tinha uma enorme importância para mim. Um homem que sabia, um sábio. Como eu torço para que alguém escreva uma linda biografia dele, narrando seus casos, suas façanhas, seus milagres.

Por que ele foi tão grande advogado criminalista?

Porque como ele dizia: " por um ímpeto do meu ser, por um comando interior, a advocacia criminal está em minhas células".

Era conhecido como o Príncipe dos Advogados Criminalistas.

Em sua presença todos tiravam o chapéu em reverência ao grande decano, ao enorme gênio da defesa criminal, ao mágico, ao mago, ao hipnotizador de conselhos de sentença.

Não o conheci pessoalmente, já o disse. Mas tinha uma sintonia espiritual com ele. Uma identificação. Um laço não sei vindo de onde. Eu daqui do Acre, ele lá de São Paulo.

Morreu aos 85 anos. Bela idade, só dada de presente àqueles advogados que souberam como ele amar a vida, a liberdade, o direito, o tribunal do júri, com todo o entusiasmo da alma.

Adeus meu grande inspirador, minha doce fonte de ensinamentos, contigo aprendi a ser advogado. Agradeço a Deus pela tua existência. Tu não me conheceu, mas eu te conheci, e isso foi um tesouro para mim.

Um nome brasileiro a honrar a história da eloquência universal do tribunal do júri. Valdir Troncoso Peres, o maior símbolo da poderosa advocacia criminal brasileira.