terça-feira, 13 de maio de 2008

A covardia do juiz de Amin Kontar


Dizia o criminalista americano que o maior prazer de uma pessoa acusada é acordar cedo pela manhã e poder afirmar que será julgado por um grande juiz. Justo, corajoso, imparcial, independente, livre dos afagos, compromissos e apalpadelas dos poderosos.

Amin Kontar não teve esta sorte.

Seu assassinato, dentro da cadeia pública do Departamento de Tarauacá, no ano de 1918, com um tiro na nuca e outro nas costelas, se deveu em grande medida a covardia de seu juiz.

Prestes a decidir ordem de hábeas corpus em valor de Amin, que apanhava sem cessar com chicote de couro de anta, o juiz recebeu ameaças do prefeito Cunha Vasconcelos caso soltasse o jovem acusado.

Amedrontado com a fúria do prefeito, que levou a cidade a verdadeiro estado de sítio, o juiz preferiu abandonar a Vila Seabra, abrindo caminho para os torturadores assassinarem Amin Kontar, logo após a sua partida.

Poderia se exigir do juiz conduta diversa da que tomou? Claro, não tenho um centímetro de dúvida. Temos vários exemplos de juízes que enfrentaram a tirania e realizaram a justiça.

"Ainda há juízes em Berlim", foi a frase dita por um camponês ameaçado de esbulho por um senhor feudal. Veja a beleza da confiança na justiça.

Quantos presos inocentes sofrem Brasil afora dentro das delegacias de polícia e nos presídios, por covardia de seus juízes?

Teria muita vergonha se eu tivesse sido filho, neto, ou bisneto, ou mesmo parente do juiz que deixou que assassinassem Amin Kontar, pela covardia com que agiu.

Peço a Deus todos os dias, que a minha toga de advogado não envergonhe a minha memória, nem a lembrança de meus descendentes.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

"Não foi eu e não sei quem foi"



Minha ligação com Amin Kontar, o Santo de Tarauacá, é muito forte, de cumplicidade. Tenho-o como símbolo do inocente martirizado.

Vítima de uma injustiça brutal, esse jovem galante, belo e brioso, deixou marcas resplandescentes no povo tarauacaense. No inconsciente coletivo.

Um povo gracioso, valente e bonito. Que odeia a injustiça.

Fiz júris em Tarauacá, e nas conversas infindáveis com meus conterrâneos, percebi um espírito que o impulsiona a julgar com bondade, imparcialidade e razoabilidade.

São padrões quem vem de longe, lá de Amin Kontar, quando o povo chorou ao ver tanta iniqüidade.

Ao ser interrogado por seus malfeitores, firmemente repetia: " não foi eu e não sei quem foi". A cada tortura, a frase imortalizada na aura tarauacaense: "não foi eu e não sei quem foi".

Não confessou o crime aos seus algozes, pois não praticara, não delatou ninguém, suportou a dor de um mártir, na luminosa eloqüencia de seu sofrimento. Seu nome já diz tudo: "o princípe constante, o princípe fiel." Aquele que não abandona, aquele que socorre, aquele que não trai, aquele que cuida, aquele que defende. Fiel como o amigo, constante como o sol que não se apaga.

Seu túmulo é o exemplo disso. É o refugio do injustiçado, do inocente, da pureza maculada, respeitado pelo rico e pelo pobre. É um temido e destemido Santo, porque traz em suas mãos o gládio da justiça, que traz no olhar, a chama da verdade, na razão, a lógica do direito, no coração, o sentimento da bondade, e na palavra, a sentença implacável.

Tenho elo muito forte com Amin Kontar, ele nunca se desligou de nossa cidade, zela por ela, pelo seu povo, querendo vê-lo a cada dia mais justo, a virtude que mais prezava.

A justiça da desordem

Deleito-me com o refinado humor, o que não se confunde com a baixaria de muitas piadas.

Há algum tempo comprei um livro de anedotas sob advogados.

Apreciei muito uma que falava de profissonais que disputavam o primeiro lugar em antiguidade.

O médico dizia que a sua era a mais antiga, pois quando Deus criou a mulher da costela de Adão, foi realizada a primeira cirurgia da história.

O arquiteto defendeu a sua, pois Deus ao criar o mundo construiu a primeira obra de arquitetura, antes disso tudo era o caos.

O advogado então aproveitou: "A minha é a mais antiga, pois fomos nós quem criamos o caos".

Interpretei a graça de outra maneira.

O advogado tem por dever criar o caos quando a ordem for injusta.

Thoreau, grande poeta místico americano, autor do livro A Desobediência Civil, escreveu que quando, em algum país, o estado comete injustiças, então o único lugar onde um cidadão honesto pode viver é na cadeia".

Ele age, questiona, desobedece, enfrenta a ordem do poder, causando sua desordem , o caos.

Assim Gandhi agiu, levou a Índia ao caos, subjugada que estava, pela ordem do dominador.

Nelson Mandela também agiu assim. Luther King também seguiu o mesmo exemplo. Causaram a desordem na ordem injusta. Lutero causou a desordem no seio da corrupta igreja medieval.

Jesus causou a desordem na ordem avarenta dos vendilhões do Templo. Ensinando-nos que devemos agir e reagir diante das coisas erradas.

Tenho a seguinte frase, de Romain Rolland, como base de minha atuação profissional: " Quando a ordem é injusta, a desordem se torna um princípio de justiça."

Ponto para Maquiavel

Meu cunhado ligou para seu tio, desesperado.

"Tio, o senhor não sabe o que aconteceu".

"Sei sim, meu filho, sua vó morreu, mas tenha força, vai superar".

"Foi isso não, tio, roubaram a minha moto".

Ao ouvir esse fato, lembrei-me, de imediato, do mestre Maquiavel.

"O homem esquece mais rápido da mãe que morreu do que do dinheiro que perdeu".

No caso, poderíamos dizer: "O neto esquece mais rápido a vó que morreu do que da moto que perdeu".

Ponto para o príncipe.

Para quando eu morrer

Minha sogra me disse, entusiasmada, que pagava um ótimo plano. Custava pouco por mês e tinha vários benefícios. Que eu também devia fazer. Interressei-me.

Perguntei que plano tão bom era esse, pois eu queria assinar também um.

Respondeu-me dizendo que era um plano que cobria as despesas com funeral.

Caixão, flores, velas, dizeres, ônibus para levar o pessoal ao cemitério e até o nescau acompanhado com bolacha amanteigada.

Ao final, falei, muito interessado no assunto: "Poxa, que bacana ein, é muito legal , oh. Vou fazer um também para mim".

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A justiça do Lula

Lula não conhece as provas dos autos. Lula ao menos conhece o Tribunal do Júri.

Criticou a absolvição de Bida, suposto mandante da morte da freira Dorothy Stang.

Como magistrado maior da nação deveria respeitar o Tribunal do Júri, a mais democrática e justa instituição jurídica brasileira. Deveria postar-se com serenidade e imparcialidade diante do caso, como fez o Ministro Nelson Jobim. A mente do Lula não tem esse alcance.

Como artifício para fazer uso da crítica diz que fala como cidadão e não como presidente. Impressionante como esse sofisma popularesco foi usado para se livrar da responsabilidade pelo escândalo do mensalão, este caso sim, envergonhou o país mundialmente, fazendo-o subir no ranking dos países corruptos.

Gostaria que o grande chefe do partido dos trabalhadores fizesse a mesma crítica em relação ao caso Celso Daniel, até hoje envolto em mistérios, com suspeitas de envolvimentos de importantes pessoas ligadas ao poder. Por que não se critica a impunidade deste crime? Porque não interessa. A justiça do Lula é assim, sempre deve haver um interesse que o beneficie.

Na instituição do Júri não há corrupção, malandragem e indecência, como há no seu governo. Os jurados votam conforme a consciência do que é justo. Condena quando é para condenar e absolve quando é para absolver. O Júri é instituição rígida, e condena mais do que absolve, as estatísticas comprovam isso.

Se os acusados no crime do mensalão, amigos do presidente, forem absolvidos, lá estará o Lula aplaudindo a realização da justiça. Pois isso é do seu interrese. Como o Lula sabe o que é justiça!

A culpa e a inocência, para o Lula, é um questão de conveniência.

Thêmis não viu suas filhas chorando

Ofereço este artigo em homenagem a todas as mães sofredoras do mundo.

Estava no átrio do Fórum, era manhã. Sobe uma mulher grávida, algemada, escoltada. Tráfico de drogas. Uma criança corre em sua direção, linda, quatro aninhos, desesperada, chorando, gritando, ouvia-se: "mamãe, mamãe!". A mulher procura esconder as algemas, evita chorar, evita abraçar, evita olhar, a menina. Olha para frente, não quer mostrar fraqueza, mas tem lágrimas nos olhos. O policial diz com autoridade: "dá licença, dá licença". A criança segue atrás de sua mamãe, ela não responde, não a deixam parar. Acaba a cena, fugacidade, em segundos, diante dos meus olhos. Um nó atravessou a minha garganta. Indignação.

Thêmis não viu as suas filhas chorando. Não pôde ver, estava com os olhos vendados e de costas para o Templo. Sendo cega, sua espada lancinante feriu infelizes criaturas.

Quando a cena passou fiquei arrependido, pois nada fiz. Deveria ter avançado em cima do policial, tomado as chaves das algemas, arrebentado aqueles grilhões e mandado aquela criancinha abraçar sua mãe. Fui covarde. Penitencio-me ao escrever essas linhas, ainda revoltado, ainda com aperto no coração. Sou pai e tenho uma mãe.

Francesco Carnelutti, jurista italiano, escreveu o imortal livro As Misérias do Processo Penal, e se tivesse visto aquela cena, a teria tomado como exemplo de indignidade, de degradação, de desumanidade, de recuo civilizatório. Ele diz que o símbolo da justiça não deveria ser a Thêmis com olhos vendados e com espada nas mãos, e, sim, um algema quebrada. Como isso é verdadeiro! Nada simbolizaria mais um ato de justiça do que a ruptura daquelas algemas.

Não seria possível conduzir aquela mulher, esmirrada pelo sofrimento, até a Vara Criminal, sem algemas? Dois policiais não conseguiriam garantir a segurança dentro do Templo da Justiça? Estariam ameaçados por aquela senhora? Não seria mais humano ter deixado a criança beijar sua mãe, sem ver as algemas nas mãos da pessoa que mais ama?

As misérias do processo criminal são exatamente essas: vindita, expiação, exposição, humilhação. As vítimas são aquelas que o Estado despreza, mas que ao mesmo tempo exige delas o pagamento de seus impostos. Se não os paga ficam sem luz, ficam sem água. E mesmo pagando ficam sem escola, sem saúde, sem saneamento, sem emprego, sem nada.

Alguém duvida que em cada cem acusados, pelo menos noventa e cinco são pobres? O Código Penal e as algemas foram feitos para eles. São as classes perigosas que precisam ser encarceradas. Remédio: a cadeia.

A elite do crime continua solta, rindo de nossas leis, confiada na impunidade. Lao Tzu, há mais de dois mil anos já a denunciava: "quando as cortes são ornadas com esplendor, ervas daninhas sufocam os campos e os celeiros ficam vazios. Quando os nobres vestem mantos bordados que escondem afiadas espadas, fartam-se de alimentos sofisticados, adquirem mais do que podem usar, são os piores bandidos". Karl Marx não estaria um pouco com razão quando afirmou que o direito é a vontade, feita lei, da classe dominante?

Junto com a mulher, as criancinhas também foram algemadas e presas. Não consigo aceitar, entender, concordar com isso. Nossa Constituição Federal consagra a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos republicanos, e diz que a pena não pode passar da pessoa que cometeu o crime, mas aquelas menininhas sofrerão os castigos de um mal que não cometeram. Crescerão órfãos, sem apoio, sem refúgio, sem conselhos, sem as asas acolhedoras da mãe. Será que o futuro não as espera num canto de alguma penitenciária? Alguém já comparou a justiça com uma teia de aranha, que pega os pequenos insetos e se arrebenta com os grandes.

O mais grave de tudo isso é saber que em torno de 25% das pessoas acusadas são condenadas injustamente. Esses são os números que nos são dados por Evandro Lins e Silva, criminalista do século, no seu livro A Defesa Tem a Palavra. Foi vendo esse sofrimento proveniente dos erros da justiça contra os pobres que Roberto Lyra, O Promotor dos Promotores, bradava: "tenho horror à inocência martirizada".

Se eu fosse juiz e tivesse visto uma cena daquela teria soltado a pobre mulher. Minha sentença seria como a do jusfilósofo brasileiro, João Batista Herkenhoff libertando Edna Santinha, eis:

"A acusada é multiplicamente marginalizada: por ser mulher, numa sociedade machista; por ser pobre, cujo latifúndio são sete palmos de terra dos versos imortais do poeta; por estar grávida, santificada pelo feto que tem dentro de si e que ao invés de estar recebendo cuidados pré-natais, espera pelo filho na cadeia. É uma dupla liberdade a que concedo nesta sentença: liberdade para Edna e liberdade para o filho de Edna que, se do ventre da mãe puder ouvir o som da palavra humana, sinta o calor e o amor da palavra que lhe dirijo, para que venha a este mundo tão injusto com força para lutar, sofrer e sobreviver. Este juiz renegaria todo o seu credo, rasgaria todos os seus princípios, trairia a memória de sua Mãe, se permitisse sair Edna deste Fórum sob prisão. Saia livre, saia abençoada por Deus, saia com seu filho, traga seu filho à luz, que cada choro de uma criança que nasce é a esperança de um mundo novo, mais fraterno, mais puro, algum dia cristão. Expeça-se incontinenti o alvará de soltura".

O direito penal tem sido mais o direito da sombra que o direito da luz, mais o direito do vale que o direito do cume, mais o direito da elite que o direito dos párias.

A justiça precisa ser mais humana, razoável, equânime. Por fim, vale recordar a velha lição do Crucificado: "Na mesma medida que medirdes, será vós medido, com medida boa e sacudida e transbordante e socada, porque o mal que fazes a esses pequeninos é a mim que fazeis".

Thêmis, não deixe suas filhas chorando!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Minha grande professora

Toda vez que chego em Tarauacá os mais velhos relembram a história.

"Esse pegou muita pisa para ir a escola".

Foi isso mesmo. Não queria estudar. Foram seis pisas, uma por dia, até eu não aguentar mais.

No primeiro dia, fiz tanto escândalo na escola que minha mãe, envergonhada, me levou para casa. Quando cheguei a pisa comeu.

No outro dia, escondi minha sandália havaiana, não fui a escola. Algumas horas depois fui vítima de uma delação. Outra pisa.

No terceiro dia, me escondi debaixo da casa de uma vizinha. A vizinha da frente me dedurou. Meu irmão mais velho, agindo como capturador de negros fugitivos, me levou até minha mãe. Outra pisa.

No quarto dia, simulei uma queda, fiquei todo sujo. Outra pisa.

No quinto dia, fugi de casa. Correram atrás de mim e me pegaram. E peguei outra pisa.

No sexto dia, inventei que um menino queria me bater na escola. Minha mãe constatou a mentira e me deu outra pisa.

No sétimo dia, vendo que não tinha jeito, me rendi. De lá para cá fiquei um apaixonado pelos estudos.

Para mim, a pisa funcionou, embora muitos questionem esta forma de educar.

Mas devo a minha mãe a sabedoria de ter descoberto, sem consultar a nenhum pedagogo, a melhor técnica de se fazer alguém gostar de ir para escola. Ela foi minha grande professora.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Foi o Roberto Vaz

Perguntaram-me, hoje, quem tinha tirado a foto que aparece estampada no meu blog.

'"Tudo é História". Assim estava escrito numa blusa que eu usava quando cursava História na Universidade Federal do Acre.

Corria o ano de 2003. Salete Maia e eu nos dirigíamos para fazer sustentação oral na Câmara Criminal do Tribunal de Justiça.

Quando caminhava para atravessar a rua, ouvi uma voz que me disse: "vem do jeito que tu vem".

E fui. Com a beca, a bolsa e o livro do penalista Mirabete. Roberto Vaz então me fotografou. Com máquina moderna. Ele tem paixão pela tecnologia.

"Porra, cara, tô de acompanhando, tu vem se destacando pra caramba".

"Que tu anda fazendo Vaz".

"Toma aqui rapaz, visita o meu site." Era o noticiasdahora.com.

"Visito sim. Tá legal, estou indo, tá na hora, um abraço, prazer revê-lo".

"Um abraço, mas deixa eu tirar outra foto. Vai pra ali, debaixo daquele pé de Benjamin."

Fotografou-me novamente.

Anos depois, as duas fotos apareceram diversas vezes em seu poderoso site ac24horas. Lembrei-me então da história das fotos.

Não acreditava que Roberto Vaz teria sucesso nesse negócio de jornal eletrônico. Não dei a mínima.

Só que Roberto Vaz possui inteligência empresarial. É empreendedor nato. Não precisa de curso superior. Põe a mão no negócio e o negócio prospera.

Tenho saudável relação de amizade com ele. Nossas conversas são engraçadas e agradáveis. Gosto de ouvi-lo falar, interpreta tudo de forma a despertar sensações. De uma notícia amorfa consegue dar vida e chamar a atenção. Poucos têm o talento que ele vem demonstrando, não é a toa que é proprietário do mais lido e temido site do Acre.

Anônimo me mandou vários comentários

E publiquei-os todos.

Falou que eu precisava urgentemente de Jesus. Anônimo está certo.

Falou que não existe esse negócio de astral superior. Anônimo está certo.

Falou que Jesus me ama muito. Anônimo está certo.

Falou que o evangélico não quer que ninguém seja igual a ele, mas igual a Jesus. Anônimo está certo.

Falou que ninguém precisa de alucinógeno. Anônimo está certo.

Falou que Jesus é a verdadeira revelação. Anônimo está certo.

"Mas como Sanderson? Você diz que anônimo está certo, não vai reagir? Em muitas coisas o anônimo está errado, não conhece, ignora".

Você também está certo. Cada ponto de vista é a vista de um ponto. Temos que ser tolerantes. Cada pessoa chega a Deus pelo caminho que lhe é possível. E existem vários caminhos. Deus, Consciência Suprema, abraça com carinho todas as suas criaturas.

Agradeço os comentários do anônimo, que acredita piamente no caminho que seguiu. Eu também acredito no meu.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O que é falar bem?

Sou um estudioso da ciência retórica. Tenho muitos livros, dos clássicos aos modernos.

Mas nesses livros não encontrei a essência do que procurava: falar bem.

Muitos modelos, muitas técnicas, muitos métodos e estratégias de argumentação eles apresentam. Mas a quintessência não achei.

Via Cícero, via Demóstenes, via Danton, via Trotski, via Hitler, e tantos outros, nos seus magníficos discursos.

No entanto, sentia que a substância que buscava não conseguia encontrar.

Foi quando comecei a achá-la. Na voz doce de Jesus. Na profundidade dos ensinamentos de Krishna, na palavra de Luther King, na eloquência de Ghandi.

Encontrei o que é falar bem. Com amor no coração, com respeito, com voz convicta, com gestos firmes, com ideiais elevados, com naturalidade, com ollhar sereno, com ética, tudo como se fosse uma canção sublime.

A verdade conduzindo tudo para o bem. Nada de falsidade, de impuro, deve haver na palavra do orador, do condutor, do líder.

Isso é o que convence, que orienta, que se eterniza. Só falar para o espírito do homem e não para o ego de sua carne.

Achei o que eu precisava, não foi fácil, a caminhada foi longa, e tudo que se conquista tem uma sabor mais elevado.

Posso dizer: dissipou-se as trevas da minha ilusão, revelou-se-me o que eu procurava.

Dois homens de alta voltagem espiritual

Tenho fascínio por duas personalidades do século XX. Martin Luther King e Mahatma Ghandi.

Vieram das mais altas alturas, da morada dos profetas. Diretamente do trono do Rei para mostrar a humanidade a beleza do amor.

Homens de grande cultura e de infinita coragem. Apareceram na terra e cumpriram luminosamente suas missões. Um libertou a Índia, da servidão, o outro, a América, da intolerância. Deixaram lições de luz, de paz e de bondade.

A estatura sideral destes homens é o reflexo da existência do poder divino, vieram plenos dele.

Um era advogado, defendia a causa das criaturas. O outro era professor, ensinava que o Criador estava presente em todos os seus filhos.

Bebo desta fonte, e como é bom beber das límpidas águas que regam nosso espírito.

Fizeram suas revoluções sem o ódio, levantando a espada da não-violência, que não fere a carne, mas fere a imoralidade, o arbítrio, o desamor, o egoísmo, a alma insana, e que clareia as trevas da ignorância pondo de joelhos as forças do mal.

Foram assassinados, como o Cristo foi. Todos eles sabiam que é melhor morrer no cumprimento do dever do que viver sob o império da subjugação e do obscurantismo das consciências.

Dois princípes de alta voltagem espiritual, mensageiros do astral superior. Suas energias rondam a terra, e podemos senti-las quando ligamos nosso pensamento na faixa da luz.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Como calar o acusador

O promotor gritou: "Eu sou imparcial, posso tanto pedir a condenação como a absolvição, o senhor não pode, tem sempre que pedir a absolvição do seu cliente."

O advogado respondeu: "Quem disse que o senhor é imparcial, se o senhor fosse imparcial não precisava de juiz aqui. Eu também posso pedir a condenação, peço para tirar uma agravante, peço para reconhecer uma atenuante, peço para que a pena seja aplicada na justa medida."

O promotor gritou: " Eu sou defensor da sociedade, o senhor, do indivíduo."

O advogado respondeu: "Onde está sua procuração, a sociedade lhe outorgando exclusivamente tanto poder? Da mesma forma que o senhor é, eu também sou representante da sociedade. Se ela tem interesse na punição do culpado, também tem interresse na absolvição do inocente".

"O promotor gritou: "O senhor está sendo pago para defender".

O advogado respondeu: "Vossa Excelência não estar aqui de graça. Recebe muito dinheiro. Enquanto eu recebo só do cliente, o senhor recebe tanto do cliente como do pai do cliente, da mãe do cliente, da família do cliente, dos amigos do cliente, que pagam seus impostos para sustentar o seu salário."

Vendo que estava sem argumentos, o promotor apelou: " O senhor é o advogado do diabo".

O advogado respondeu: " O senhor sabe quem é o Acusador, é o Satanás, doutor, é o Satanás".

Assim, o advogado conseguiu calar o acusador.

A arte e a ciência da escolha

Selecionar pessoas não é fácil. Na amizade, no divertimento, no trabalho, na vida social, na política, na religião, no Júri Popular. Nos unimos ao que nos é semelhante.

O advogado, no Tribunal do Povo, necessita ter a capacidade de escolher as pessoas certas para julgarem seu cliente. É arte e ciência.

De 21 jurados, 7 vão sentar no Conselho de Sentença. O Juiz vai sorteando os jurados e a defesa e a acusação vão recusando até o número de três, para cada lado, sem precisar justificar. Só será juiz o jurado que for aceito, concomitantemente, pela defesa e pela acusação, até o o número de 7, o número da perfeição.

Não é bom dizer a palavra "recuso" ao não aceitar o jurado. Ninguém gosta de ser recusado, mesmo que este termo seja dito no sentido técnico. Aconselha-se a dizer, "libero e agradeço a presença."

Quais os critérios usados para recusar ou aceitar jurados? Basicamente três: o informativo, o psicológico e o intuitivo.

O advogado precisa saber quem é o jurado. De onde veio, onde trabalha, qual a sua religião, quantos filhos têm, se alguém de sua família já foi vítima ou réu, se ele próprio já esteve numa dessas condições, qual a sua posição ideológica, quem é o seu patrão, qual o seu grau de escolaridade, e outras informações. É um trabalho de pesquisa. Nos Estado Unidos, o potencial jurado é sabatinado antes de fazer parte do Júri, aqui não.

O advogado precisa saber também o que diz a psicologia, tanto a científica como a empírica, sobre o perfil dos jurados. Por exemplo: o evangélico é condenador, porque exige dos outros que sejam iguais a ele. O espírita é absolvidor, devido ao fato de crer que o homem será penalizado independente da justiça humana, pela lei do carma. O católico, por ser mais liberal, seria um bom jurado. O idoso é um risco, já que se está no conselho de sentença é porque é homem probo e idôneo. Julgará o jovem com mais severidade, que tão cedo já começou a errar. A contrario, o jovem é bom jurado, pois se aquele réu cometeu falta tão cedo, ele também poderá cometer. A mulher não seria aconselhável para a defesa em determinados feitos, por cometerem menos crimes e se emocionarem demais com o tema morte e sangue. No caso de negativa de autoria são boas julgadoras, não suportam ver o inocente injustamente acusado.

Quem pensar que esses critérios são religiosamente rígidos pode aceitar ou recusar cegamente um bom ou um mal jurado. Tudo é flexível, vai depender, além da combinação dos critérios, da intuição do advogado.

Ao olhar para o juiz leigo que se levanta, o homem de refinada intuição pode ver para além das aparências. Seus olhos, seus gestos, sua boca, seu semblante, espelho da alma. É uma espécie de dom, mas que pode ser conquistado.

Outras questões relacionadas com a importante escolha dos jurados, o advogado vai adquirindo com o tempo, aliás, "experiência é posto".

Esse meticuloso trabalho de escolha precisa ser aperfeiçoado a cada Júri, pois o acusado tem o direito de ser julgado da forma mais imparcial possível. E não existe justiça, quando a parcialidade impera, seja a de ordem objetiva, seja a de ordem subjetiva.

A Revelação

Viajando pelo cosmo
Nesse raio multicor
Vou subindo ao infinito
Pela força desta flor.

Nesses mistérios, nesses encantos
Nesses segredos do mundo
Vejo a harmonia do Criador.

A Rainha vai me guiando
Ao Rei de pura luz
Já escuto anjos cantando
Dando glórias a Jesus.

Mestre Gabriel falou
De uma fonte cristalina
E disse que essa união
É a beleza divina.

Esse é o nosso tesouro
Revelado a humanidade
Vedas da sabedoria
O tao da liberdade.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Hoasca:a luz de Deus

Está nela o conhecimento da existência espiritual.

Conforto das almas, alento da vida. Segredo que leva ao Imanifesto e ao Invisível. Que faz ver o Infinito, que te lança nos braços do Espírito Supremo.

Fragrância da terra, brilho do fogo, imensidão das águas. Esplendor grandioso da Santa Luz Universal.

Não pertence a ninguém, mas pertence a todos. Inapropriável poder da divindade. Realeza sagrada na terra.

Dela se pode dizer, com a voz de Krishna: é a santidade de todos os santos, a semente da imortalidade, a sabedoria dos sábios e a inteligência dos inteligentes.

Ó Soberana Hoasca, memória do criador, enches de luz os espaços cósmicos, que o mundo anseia em possuir.

Tu és patrimônio dos acreanos, dos brasileiros, da humanidade inteira.

Tua leve e pura luz. Ah! se todos conhecessem a tua leve e pura luz!

"Vamos ver"

Vamos ver era a alcunha de seu Guilherme.

Para tudo dizia: "Vamos ver".

"O que nós vamos comer hoje, papai?"

"Vamos ver".

Guilherme, nós vamos para a colônia?"

"Vamos ver".

"Seu Guilherme, o senhor promete dizer a verdade do que souber e lhe for perguntado sob pena de falso testemunho?"

"Vamos ver".

O juiz reagiu: "O quê, vamos ver? O senhor é obrigado a dizer a verdade, senão vou lhe prender. O senhor promete dizer a verdade?".

"Vamos ver".

Antes se ser preso por desacato, a mulher de seu Guilherme, muito culta, explicou ao magistrado.

"Meritíssimo, o Guilherme tem o apelido de "Vamos ver", desde criança sofre disso.

O "vamos ver" pode significar, dependendo da situação, várias respostas. Dúvida, afirmação ou negação, indefinição e embromação.

Nesse caso ele está afirmando, não prenda meu marido, por favor, ele vai dizer a verdade".

O juiz, compreensivamente, perguntou ao seu Guilherme: "É isso mesmo, seu Guilherme".

"Vamos ver".

Seu Guilherme não era doido da cabeça. Simplesmente tinha essa idéia fixa como resposta para tudo.

A causa, até hoje ninguém descobriu.

Penso eu que a origem deve está em algum passado muito remoto da vida de seu Guilherme. Só uma regressão as suas vidas préteritas pode decifrar tão complexo enigma.

Para os íntimos, dona Raimunda

Enquanto não iniciava a Sessão de Julgamento na Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Acre, o doutor Silvano Santiago e eu papeávamos deliciosamente.

Contou-me um fato pitoresco.

Num processo em que ele atuava, foi chamado para depor como testemunha a pessoa de Raimundo Francisco Nonato Vieira Nogueira da Silva e Silva.

Quando Raimundo entrou na sala de audiência ficaram todos espantados. Raimundo vinha espalhafatosamente bem empiriquitado. Baton, brinco, pulseiras e um rebolado arretado. Pediu licença e sentou, majestosamente.

Já bem acomodada, solicitou a todos, juiz, promotor e advogado, que o chamasse de dona Raimunda, senão não iria colaborar com a Justiça.

Assim foi feito. Todos a chamavam de dona Raimunda.

De vez enquanto, alguém esquecia e pedia para seu Raimundo explicar melhor o que tinha falado.

Ficava surda e muda, não respondia, balançava a perna, entortava a boca, e olhava em tom desafiador.

"Me desculpe, dona Raimunda, poderia me explicar melhor os fatos".

"Claro, claro, claro". E se danava a falar, compulsivamente.

Seu depoimento foi bastante esclarecedor e muito contribuiu para a descoberta da verdade.

No final, dona Raimunda agradeceu a todos por ter sido tão bem tratada pelos homens da lei.

E com elegante andar, jogou a bolsa nos ombros, olhou para trás e deu um tchau, só com os dedos da mão direita.

E deixou a sala sob os olhares fixos de todos, que admiravam tamanha personalidade.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Coitado do Chiquinho e de tantos outros

O nome é fictício, os fatos, não.

Estava em minha casa, já acomodado para dormir, quando alguém bate à porta.

Era um conhecido. Alguém tinha acabado de roubar as cadeiras de balanço de sua casa.

Queria saber de mim se naquela rua morava o Chiquinho, rapaz viciado em drogas e que furtava para manter o vício. Fui professor de história de Chiquinho, tinha uma inteligência invejável. Que pena, trilhou o caminho da angústia.

Disse ao conhecido que o Chiquinho morava ali, sim. Perguntei por que ele queria saber.

"Doutor, esse cabra sem-vergonha roubou minhas cadeiras de balanço, estou indo da parte dele na delegacia."

"Alguém viu?", interroguei.

"Não, ninguém viu, mas foi ele."

"Como você pode dizer isso?", exaltei a voz.

"Ele é o único ladrão dessa área, doutor", respondeu-me.

" Pois vou lhe dizer um coisa, camarada, o Chiquinho, todos da rua sabem, está preso há mais de mês".

"É verdade, doutor?", perguntou, admirado.

"A pura", disse-lhe.

"Meu Deus", falou espantado.

Depois disso foi embora.

Quantas pessoas não são injustamente acusadas, só por causa de seu passado?

Sempre alertamos aos jurados: julguem os fatos do processo, não julguem os antecedentes do acusado. O nosso ordenamento criminal consagra o direito penal dos fatos e não do autor.

O pretérito de uma pessoa serve apenas para medir a quantidade de pena que será imposta, depois de provada a autoria do delito, com fatos reais. Não serve para demostrar o crime, substituindo a prova dos acontecimentos.

Essa lição não se aplica apenas no processo criminal, mas em todos os momentos da vida que somos chamados a julgar nossos pares. E temos por dever julgar decentemente.

"Ó justiça, tu me és tão cara como as gotas de sangue que visitam o meu coração", clamava Shakespeare.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O saber cuidar

Recentemente, estive na UFAC ministrando palestra para os alunos do 1º e 3º períodos do curso de direito. O tema: o exercício da advocacia criminal no Tribunal do Júri.

Um dos pontos abordados foi a respeito dos cuidados que os patronos devem ter no tríduo que antecede ao julgamento. Claro que esses cuidados devem ser contínuos.

Dormir bem, se alimentar com comidas leves, não se estressar, não polemizar com ninguém, não ingerir bebidas alcólicas, evitar aglomeração de pessoas, cuidar da garganta.

Concentração absoluta de energia. O advogado deve se preparar para o Júri do mesmo jeito que o general se prepara para a batalha. Ser um espartano.

Aconselhei a assistir a um bom filme, a ler a Bíblia, a fazer algo singelo.

Orientei também a pensar positivo, a visualizar a vitória.

E disse: "nunca façam um Júri quando estiverem doentes, com dores, gripes, diarréia, com alguma perturbação física. Você vai perder. Peça adiamento, nem que o réu fique preso por mais alguns dias, é melhor do que ele amargar infindáveis anos na cadeia por causa de seus problemas de saúde".

Narro isso porque ontém passei por essa prova de fogo.

Era aniversário de um querido amigo meu, com muita cerveja, comida gostosa e boa viola. Levei um presente e o parabenizei. O ambiente estava maravilhoso.

Recusei a bebida. Houve muita insistência. Confesso que estava com incontrolável vontade.

Na hora do jantar, recusei. Comida boa, mas pesada. Estava com água na boca.

Repeti a mesma resposta para os que me perguntavam porque eu não estava bebendo ou comendo. " Júri, meu amigo, amanhã eu tenho um Júri".

Fui embora antes dos parabéns. "Já vai, por quê?".

"Júri, meu amigo, amanhã eu tenho um Júri".

Graças a Deus, coloquei em prática o que eu tinha ensinado poucos dias antes aos acadêmicos de direito, e gostei de mim mesmo.

E graças a Deus, o reú foi absolvido.

A doida e o amarelim

O crime afetou as paixões do povo tarauacaense. Cidade dividida. A vítima era importante membro do partido dos trabalhadores e de numerosa família, também influente. Uns a admiravam, outros, a repeliam, por seu passado de violência.

O acusado, embora sendo natural de Tarauacá, veio morar em Rio Branco ainda menino. Quando para lá retornou, ninguém o conhecia mais.

O clima estava tenso, na cidade das formigas, no dia do julgamento. Escolas suspenderam suas atividades para que os alunos fossem ao Tribunal do Júri. O trânsito foi desviado da Rua do Fórum, a principal de Tarauacá.

Família e partido articulados para condenar o réu. Faixas, cartazes, blusas, panfletos, gente para aplaudir e vaiar. Jurados amedrontados com a ação intimidadora.

Denunciamos isso em plenário de julgamento. Enfretamos o poder. Despertamos coragem nos jurados.

No final, nossa tese de homicídio privilegiado passou, apertadamente. O réu agiu por violenta emoção logo em seguida a injusta provocação da vítima. A pena foi fixada em quatro anos, em regime aberto, sendo o réu posto em liberdade.

O Júri terminou de madrugada, sendo que o réu veio de imediato para Rio Branco, pela estrada, escoltado por policiais que temiam uma reação dos revoltados.

O juiz nos ofereceu proteção para chegarmos em casa. Recusamos. Sendo Tarauacá nossa terra, não nos intimidaríamos com qualquer ameaça.

Ganhamos um apelido dos familiares da vítima. Eu era o "amarelim", e a doutora Salete Maia, a doida.

Se referiam assim em tudo. "Quem vai atuar na defesa?" "A doida e o amarelim".

"Olha a doida, como está mentindo." "Agora, o amarelim tá confirmando."

"Será que essa doida e esse amarelim vão absolver esse bandido?".

Nós, criminalistas, conhecemos essa deturpação na cabeça de muita gente. Confundem os advogados com seus clientes. Esquecem que somos os cavaleiros constitucionais do direito de defesa, e que todo muito tem o direito de ser defendido, inclusive, aqueles que nos criticam e nos hostilizam.

Se algum dia o destino os lançarem na rede do processo criminal, é a nós, os criminalistas, que irão pedir socorro, e saberão da importancia que tem a palavra sagrada do advogado.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A punição do Torquemada

Foi assim que a Revista Veja definiu a pena imposta ao Procurador Luiz Francisco.

Torquemada foi o medonho acusador do Tribunal do Santo Ofício, na época medieval. Para ele, ninguém era inocente, não existia direito de defesa, e a condenação era certa, nas fogueiras da Santa Inquisição.

A seguir, a íntegra da declaração sobre a punição do procurador Luiz Francisco, feitas pelo conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público Ernando Uchoa Lima:

"Isso é para mostrar que o Conselho Nacional do Ministério Público está vigilante no que tange à conduta de representantes do MP.

O Conselho, naturalmente, tem todo o interesse em prestigiar a instituição e respeitar a independência do Ministério Público. Ao mesmo tempo, tem que exigir condutas dentro dos parâmetros legais.

O representante do Ministério Público não pode sair ofendendo as pessoas, denunciando outros apenas por mera suposição ou perseguir alguém. É por essa razão que o Conselho resolveu punir o procurador Luiz Francisco Fernandes de Souza, com suspensão de 45 dias, e o procurador-geral da República Guilherme Schelb, com a pena de censura.

A meu ver, a punição não foi branda, pois punição é sempre punição, marca a pessoa que foi, digamos, condenada. Tanto faz que a pena seja elevada ou branda. Para mim, o que importa é a condenação.

Isso porque essa decisão do Conselho vai ficar nos assentamentos deles. Entendo que o CNMP adotou uma decisão que vai ficar na história e servirá de exemplo para evitar que outros representantes do Ministério Público tomem posições que estão absolutamente à margem da lei".

O acusador de Hildebrando Pascoal

Hildebrando Pascoal deverá sentar no banco dos réus do Tribunal do Júri, no dia 23 de junho próximo, para ser julgado como autor do crime que vitimou Baiano, um dos assassinos de seu irmão.

Todos os processos contra Hildebrando Pascoal foram articulados principalmente por duas pessoas: Gercino Silva e Luiz Francisco. O primeiro, então presidente do Tribunal de Justiça do Acre, o segundo, o então temível acusador da República.

Luiz Francisco, hoje, encontra-se desmoralizado, penalizado, recuado, amedrontado. Essa é a imagem que o júri terá do acusador.

Em pouco tempo, cambiou de posição, passou a ser condenado. E não me diga que foi fruto do seu intenso trabalho contra o crime organizado. Não foi.

Luiz Francisco foi punido pelo Conselho Nacional do Ministério Público por trabalhar imoralmente. Por abusar de suas preerrogativas funcionais, por usar a imprensa para conseguir seus objetivos ocultos, por perseguição injusta e implacável contra as suas vítimas, motivado por convicções político-partidárias.

Hoje, o procurador é voz fraca, desprezível até, ninguém acredita mais nele. A sociedade não o aplaude mais. A imprensa não o prestigia mais. O poder não tem mais interesse por ele. Seus amigos o abandonaram. Vive no ostracismo. Antes, um leão raivoso a fazer a vontade de seu partido, o PT. Atuamente, um felino desdentado e sem forças.

A roda da história não pára de girar. De tomar nota, de requerer contas, de impor sanções.

O herói de ontem pode ser o vilão do amanhã. E o vilão do passado, talvez, não seja tão vilão assim.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Meu blog está censurado?

Um amigo me informou que não é permitido acessar meu blog nos computadores do Tribunal de Justiça. Antes era possível, mas agora, com recentes bloqueamentos, está proibido de se ler Sanderson Moura.

Aparece as seguintes informações: " Site não autorizado. Senhor usuário detectamos uma tentativa de acesso a um site na internet em desacordo com o estabelecido na Resolução nº 05/2006 em especial o artigo 26 e seus parágrafos."

A referida resolução estabelece que é vedado o uso de computadores do Poder Judiciário para a visualização ou armazenamento das matérias de natureza pornográfica, difamatória, ofensiva aos bons costumes, discriminatórias, político-partidária, bate-papo, entretenimento e promocional.

Onde estaria a causa de proibição de acesso ao meu blog? Por que os outros blogs, da mesma natureza que o meu, podem ser acessados? Isso fere o princípio da isonomia constitucional, que garante a todos a igualdade perante a lei, independente da condição que ostente.

A Constituição Federal no artigo 220 prescreve que " A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer tipo de restrição, observado o disposto nesta Constituição".

Faço parte do tripé da Justiça. O advogado é indispensável a prestação jurisdicional correta.

As crônicas forenses, o cotidiano do Fórum Criminal, as críticas salutares com o objetivo de aperfeiçoamento do aparelho judicário e do sistema penitenciário, são de interesse público e tem tudo a ver com aqueles que operam o direito, acompanhando fatos e lendo opiniões que esclarecem e ensinam.

Classifico meu blog como pedagógico e jurídico, que muito pode contribuir com o progresso constitucional das nossas instituições.

No estado democrático de direito não pode haver espaço para esse tipo de censura.

Se hoje é o meu, amanhã pode ser o seu.




A promessa

O Júri era muito difícil e polêmico. Desses casos envolvendo o chamado grupo de extermínio.

Um amigo do réu fez promessa a Deus consistente em ir a pé do Tribunal do Júri até o Café Contry, que fica na estrada de Porto Acre, caso a decisão do Júri fosse absolutória.

As três horas da manhã, o Conselho de Sentença absolveu o acusado do crime de homicídio duplamente qualificado.

De mãos dadas para o alto, saímos eu, doutora Salete Maia e Jair de Medeiros, do Tribunal do Júri, em tom triunfante, ovacionados pela multidão, que aguardava o resultado do julgamento.

A comemoração dos familiares foi emociante. Unidos estavam evangélicos, espíritas e católicos, que também de mãos dadas, em volta da estátua de Têmis, rezavam emocionantemente o Padre Nosso.

Serenado um pouco mais os ânimos, alguém lembrou para o promitente, que estava caladinho, da promessa que fez, e que agora tinha que cumprir.

"Vou cumprir. Vou cumprir. Estou indo."

E foi, lentamente, de vez enquanto olhando para trás, como se esperasse uma ajuda de alguém.

Mas, antes de sair pelo Portão do Fórum, alguém gritou. "Não faça isso não, rapaz, a caminhada é perigosa, já é de madrugada, você pode ser assaltado ou coisa parecida".

A ajuda que precisava apareceu.

E como aquele medroso que diz "me segura senão eu vou bater nesse cara, me segura", conseguiu escapar do cumprimento da árdua promessa.

Se fez outra em substituição, não sei. Se foi perdoado, não sei. É bom não fazer promessa que não se pode cumprir. Há uma tendência a acreditar que, mesmo sem a promessa feita, o pedido se realizaria.

É como o cliente que depois de absolvido acha que foi por um favor do juiz, e não pela luta árdua de seu advogado.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Habilidade política no júri

O Júri é uma instituição política e jurídica. Portanto, qualquer erro de diplomacia pode ser fatal.

Assim aconteceu na cidade de Feijó.

Um determinado advogado, muito metido, ao receber um copo d´água, na hora de sua sustentação oral, irritadíssimo, gritou com a servente, uma senhora de idade, muito simpática, onde todos gostavam dela: "Mas isso não é água mineral, não tomo dessa água, quero água mineral.

O jurados o olharam severamente. A partir daquele momento, só Deus como advogado!

A causa era boa, mas por 4 votos contra 3, o advogado perdeu o Júri.

No final do julgamento um jurado andava comentando:"Essa cara já morou aqui, tomou água do rio Envira e agora vem dá uma de gostosão aqui para nós, só porque mora em Rio Branco".

Diplomacia é fundamental no Júri, assim como na política. Do jeito que o político perde um voto, o advogado pode perder também.

Não foi só a água que o advogado inabilidoso rechaçou. Desprezou o povo, a cidade, ofendeu seus brios, quis está acima deles, quis ser melhor do que eles. O Júri percebe tudo, é de uma fineza psicólogica invejável.

Fica a lição para os que querem galgar os degraus que levam ao topo da atuação profissional no Júri.

A medicina forense do povo: " foi no vazii"

O júri aconteceu na cidade de Tarauacá. O juiz colhia depoimento de uma testemunha de vista, ou seja, aquela que viu os fatos.

O juiz perguntou a testemunha onde a facada tinha atingido.

Com a simplicidade do homem do interior, a testemunha respondeu: "Foi no vazii".

O juiz, não sendo do Acre, novamente perguntou: "Onde?". "No vazii", repetiu.

O juiz, com quem até hoje mantenho cordial aproximação, olhou para mim, como que me pedindo socorro para entender aquilo.

Levantei-me e expliquei. " No vazio, excelência, é uma expressão nossa, e que dizer que foi nessa região aqui, oh, parte do tronco onde não tem osso, tudo isso aqui é o vazio, o resto é costela. Dizem que é o vazio porque Deus tirou a mulher desta parte, por isso nos falta costela."

"Ah, agora entendi, foi na região epigástrica", concluiu feliz da vida o juiz.

Então mandou o escrivão consignar: "Que a testemunha viu que a facada atingiu o vazio...".


"Vazio ou vazii, doutor Sanderson?", indagou-me.

"Vazii mesmo, excelência, vazii mesmo, do jeito que a testemunha falou."


"Que a testemunha viu que a facada atingiu o vazii da vítima".

Depois disso, as dúvidas sobre medicina forense foram superadas.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O advogado de Júri

Nesta quinta-feira, dia 25 de abril, as 19 horas, proferirei palestra para o 1º ano do Curso de Direito da UFAC. O convite partiu do competente professor Francisco Raimundo, Diretor do Curso de Direito.

Como tema abordarei o exercício da advocacia no Júri Popular.

Eliezer Rosa, em prefácio a obra de Romeiro Neto, Defesas Penais, traz magnífica observação, sobre o segredo dos grandes profissionais do Júri:

"Nunca ninguém o disse, nem eu também sei, como se faz um grande advogado criminal de júri ou de Juízos singulares. Penso, porém, que deve ser com aturado labor de estudos especializados, um vasto conhecimento da misteriosa alma humana; um mortificante lavor de leitura de leis, doutrinas e repertórios volumosos de arestos dos Tribunais; um trato diuturno e incansável com prosadores e poetas, a quem vão pedir os ornamentos de suas formosíssimas orações; um adestrado tirocínio da prova criminal; uma lúcida memória sempre alerta para os apartes fulminantes e demolidores; um longo e exaustivo exercício oratório, porque, como disse Latino Coelho, de todas as artes, a mais difícil é a palavra.

Boa e impressiva presença pessoal.

Há de ser o ator, teatral na voz, teatral nos gestos, teatral na encenação grandiosa dos gestos para lhes retirar o feio traço criminoso, teatral na apresentação do réu para dele afastar as subconscientes prevenções.

Tem de ser o mágico que encante e o lógico que convença, sem manhas nem artifícios.
Cumpre que seja hábil diplomata para, com arte e finura, desarmar os espíritos contra o réu e contra a defesa.

Nunca improvisar. Conhecer nos mínimos pormenores a prova do processo. Não subestimar em nenhum momento o senso comum do corpo de jurados. Como aconselhava Gambetta: há de sempre começar e terminar bem, acabar bem e, no meio da oração, pôr talento, muito talento para agradar e convencer.

Mas, antes e acima de tudo, tem de ser vocacionado, tem de trazer do berço o recorte originário do gênio da defesa.

Será sempre o artesão, na construção da prova; o artífice, na urdidura das peças da defesa e o artista, na apresentação da causa em plenário.

Há de ser um pouco de diabo e um pouco de anjo".

Espero despertar, com esta palestra, novas vocações para a advocacia criminal de Júri, a mais sublime e emocionante das profissões do direito.

As punições coletivas

Isso é irracional, é contra o senso de justiça da humanidade.

A punição deve ser sempre individual. Não posso ser penalizado pela culpa dos outros. Esse método de punição é coisa da época do Santo Ofício.

A Constituição prescreve que nenhuma pena passará da pessoa do condenado. Chamamos isso de princípio da individualização da pena.

Tenho recebido inúmeras reclamações de presos e familiares, de que na penal, quando alguém pratica alguma falta, todos levam a culpam, caso não se descubra o autor da infração.

Abuso de autoridade claro, passível de rigorosa punição. Os estabecimentos penais são espaços férteis para a germinação dessa erva daninha, chamada arbítrio do poder público.

A Lei de Execuções Penais expressamente veda a punição coletiva.

Cabe ao Juiz das execuções penais, ao Ministério Público, as entidades ligadas aos direitos humanos e a OAB a denúncia e a apuração firme dessas condutas.

O preso foi condenado a perder sua liberdade, e não sua condição de ser humano, a sua dignidade.

Do ponto de vista constitucional nosso estado precisa avançar muito. Ao olharmos para esse fato temos um idéia do nível que ainda estamos.

Conclamo nossos parlamentares a investigar essas denúncias. São graves e atentam contra a moralidade administrativa. O Acre precisa avançar.

O cidadão jurídico

Tanto o Código Penal quanto o Código Civil estabelecem que a todos se impõem o conhecimento da lei. E o seu desconhecimento é imperdoável.

Faltou pouco para a lei prescrever também que é obrigatório o conhecimento da história, da geografia, da astrologia, da medicina, da física, da matemática, da gramática, de tudo o que existe.

Em algumas cirscunstâncias, o desconhecimento da lei pode isentar alguém de pena ou amenizá-la. Aliás, no sentido amplo da palavra, temos mais de um milhão de leis no nosso país.

A lei só passa a existir no mundo jurídico quando devidamente aprovada, sancionada e publicada. Algumas leis, devido ao intenso debate na mídia, passam a ser do conhecimento público. Mas, a maioria não. Quem vai acompanhar o Diário todos os dias, com aquela literatura agradabilíssima de se ler?

Uma lei só deveria ter validade no seio de uma sociedade quando houvesse ampla divulgação de sua existência. Assim se poderia exigir do cidadão o conhecimento de seu conteúdo e o seu cumprimento.

Além disso, é inconcebível que a disciplina Direito não figure nos currículos escolares. Desde a primeira série do ensino fundamental, a criança já deveria ter contato com ela. Esse estudo poderia acompanhá-la até o ensino médio.

Ficam duas propostas para os nossos legisladores. Uma Lei que obrigue a divulgação massiva das leis, para o conhecimento público. E outra Lei que obrigue a disciplina Direito nos currículos escolares, desde a primeira série. Duas soluções para formamos o cidadão jurídico.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Os doutores do povo

Bem asseverou o grande advogado Pedro Paulo Filho que os advogados são os doutores do povo.

Aonde a gente chega se pede uma consulta. E como sempre, de grátis.

No supermecado, uma consulta. No hospital, uma consulta. Na mesa de bar, uma consulta, passeando pela praça, uma consulta. No cemitério, uma consulta. Altas horas da noite, uma consulta. Na hora do almoço, uma consulta. Num julgamento, uma consulta.

À vezes são consultas mais ligadas à psicologia do que ao direito. Alguns até perguntam se para conversar comigo precisa pagar e respondo que não.

O povo pagou seus impostos para manter a universidade pública em que estudei. De um certa maneira já foi pago também.

Consulto com prazer, mesmo nas horas impróprias, ricos e pobres, cultos e analfabetos, independentemente de sua condição econômica, cultural, social ou política. Alías, é uma simples consulta.

O problema pode ser pequeno para nós, mas para quem sofre não é. Há sempre um drama, uma preocupação, um medo. E essas conversas tranformam muitos fardos em leveza, e a pessoa dorme mais tranqüila.

Seu eu cobrasse por cada consulta vinte reais, chegaria em casa com pelo menos cem reais todos os dias. Três mil reais por mês, um bom honorário.

"Doutor, eu não entendo de lei, posso fazer uma consulta com o senhor, sei que o lugar não é o mais adequado, mas posso?". "Pode, diga, lá". Muito obrigado doutor, muito obrigado. Olha, o que o senhor precisar, estamos as ordens, ein." "Valeu". É assim, muda pouco, de uma entabulação para outra.

Um dia desses a briga era a respeito de um túmulo. A família estava disputando de quem pertencia o túmulo do de cujus. A madrasta reivindicava e os "de cujinhos do morto" também. O túmulo poderia abrigar outros futuro cadáveres. Aconselhei que os contendores pensassem em viver muito e parassem de chamar a morte. Saírem satisfeitos com a consulta. O litígio acabou.

Quero ver quais outras profissões emprestam tantas consultas grátis.

Isso prova que nós, advogados, somos os doutores do povo, e merecemos respeito.

Um trovão no júri

Leon Gambetta viveu no século XIX, na França. Tinha uma obsessão: ser advogado.

Assim, tornou-se o maior de seu tempo. E sua época foi o período de ouro da história da advocacia criminal.

Era um homem feio, cego e coxo. Porém, dono de uma voz celestial.

Aos 30 anos, ainda um moço, granjeou a celebridade.

Era chamado de o Trovão do Júri. Enfrentava o poder como um guerreiro espartano.

Seu andar no júri era poético e, com seu defeito numa perna, virava arte.

A principal caracterítica de sua defesa era a acusação. Defendia acusando. O poder, Napoleão III, ou quem fosse o responsável pelo vilipêndio dos seus defendidos.

O governo françês, num caso famoso, resolveu colocar um obstáculo físico entre Gambetta e os jurados, para evitar seu andar persuasivo. Sabia, o governo, que seu defeito físico não superaria o biombo posto.

"Com a palavra, o advogado", disse o magistrado.

Gambetta olhou, olhou, olhou o biombo e protestou veementemente contra arbítrio. Então, com toda a dificuldade de um coxo, começou a escalar o obstáculo, e o tribunal todo ficou em silêncio, e na espectativa do que ia acontecer.

Depois de muito esforço conseguiu pular para bem perto dos jurados. E com sua voz de trovão vociferou: "Respeitem a defesa, a voz da justiça vai falar."

Todo o Tribunal o aplaudiu, inclusive os jurados, que de pé, choravam de emoção. O veredicto não preciso nem dizer.

O combate ao tráfico de drogas e o caso Jailson

Jailson foi preso recentemente, acusado do crime de tráfico de drogas.

Menino pobre e trabalhador, perdeu seus pais na mesma oportunidade. A mãe de Jailson, ao ver o esposo no esquife, teve uma parada cardíaca, e morreu.

Jailson ficou órfão e passou a morar com o irmão, traficante de drogas.

Não dispondo de outro lar para morar, sabia que a qualquer momento poderia ser preso.

Evangélico convicto, Jailson testemunha Deus em todos os lugares. Na cadeia mesmo, os presos o criticam por falar só em Deus.

Sua expressão favorita para tudo que acontece é: "Aleluia Senhor, Glória a Deus Senhor, Oh pai, como tudo é bom, Pai".

Meu filho de três anos sempre dizia, imitando o Jailson: "Aleluia Jailson, Glória Jailson".

O Jailson trabalhou para mim, como pedreiro, durante uns dois meses. Sua figura não é a das mais atraentes. A primeira vista passa a idéia de um criminoso. Usa tatuagem e um cavanhaque. Mas é só a primeira vista. O preconceito é o responsável por isso.

O que se percebia nele era angústia, medo, misturado com uma vontade de vencer imensa.

Aconteceu o que ele previa, foi preso, juntamente com o irmão. Não porque a polícia tenha provas contra Jailson, mas porque a polícia tem se excedido demais no combate ao tráfico de drogas.

Assiti, hoje pela manhã, o jornalista e vereador Astério Moreira, meu dileto amigo, fazendo uma emocionante e convicta defesa de Jailson. O Astério está falando a verdade. Não conheço os autos para dizer isso, e nem preciso conhecer. Astério conhece Jailson porque eles são da Igreja Renovada. Aliás, esta Igreja tem cumprido um papel de relevante interesse público e espiritual, na medida em que encaminha os tortos para o caminho da retidão.

Tenho criticado, e já ouvi a crítica também de um Desembargador, que essas ações policiais precisam ser mais criteriosas.

A polícia chega numa casa e leva o irmão, a irmã, o pai, a mãe, a tesoura, a linha, o prato, o dinheiro do pão, celulares, bicicletas, e tudo que encontrar, e conclui pelo envolvimento de todos no crime de tráfico de drogas. Não individualiza a conduta de ninguém.

E no mais das vezes, quando diz que já vinha investigando o crime há mais de três meses está mentindo. Não investigou nada, ou quando muito, investigou pouco.

Imagine que você tenha um amigo traficante, e sem saber você é preso com ele, só porque estava em sua presença. O risco é grande.

Cabe a Justiça ponderar bem essas situações. E não decidir com olhos fechados, desferindo a espada para todos os lados.

Também concluo pela inocência de Jailson, e mais, pelo excesso de zelo da Polícia, que beira a ilegalidade. Cabe a todos nós a reação, pois esse perigo mora muito perto de nós.

Prenda o culpado, mas, por favor, não martirize o inocente.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Impressiona mesmo

Participei hoje de uma audiência com o meu amigo Jair de Medeiros.

Foi nomeado pelo juiz Jair Facundes para defender um réu pobre. Por dever profissional aceitei a defesa. Nem só de pão o homem vive.

Aqueles que tentaram criar cizânia entre mim e o doutor Jair de Medeiros, devido a crônica que publiquei intitulada Uma tese difícil de ser pronunciada, perderam seu precioso tempo.

Doutor Jair, advogado acostumado ao contraditório, não se rende aos fuxicos e às malidicências de linguas mentirosas e invejosas.

No final da audiência, vi quando o doutor Jair saiu, retornando uns cinco minutos depois, com ar triunfante.

O Jair disse ao juiz que tinha um requerimento a fazer, e assim o fez.

Passou quase um minuto citando artigos e incisos de leis sem consultar nenhum Código. Fiquei admirado com tanta memória. Coisa bonita de se ver.

O juiz da audiência questionou-o sobre um determinado inciso, se realmente a numeração estava correta. "Está sim", disse o Jair.

Na dúvida, o magistrado consultou a Constituição, e era aquela numeração mesma.

Perguntei ao Jair, baixinho, ainda em audiência, como ele conseguia decorar aquilo tudo. Ele me respondeu sussurando, bem perto do meu ouvido:

- "Me preparei ali fora. Li tudo bem lidinho, antes de entrar, é assim que a gente faz para impressionar".

Bem, aprendi mais essa com o meu amigo Jair. Uma coisa eu garanto, impressiona mesmo.

Superando uma tempestade

Não é fácil manter a constância num dia de tempestade.

Allan Kardec, no Livro dos Espíritos, esclarece que praga injusta jogada contra alguém não pega. Deus não autoriza.

Alguém jogou uma em mim no dia de hoje. E prefiro acreditar que tenha sido justa. Aliás, viemos a este mundo para pagar nossos erros e para cumprir nossas missões.

O budismo nos ensina que a resignação é caminho importante para o pagamento de uma falta.

Assim encarei a intempérie de hoje. Deus tem me abençoado muito e não estou livre, como ninguém estar, de dias turbulentos. Não adianta amaldiçoar. A maldição vai se espalhando e você vai contraindo mais dívidas.

A saída é buscar a solução e implementá-la passo a passo, pedindo ajuda de Deus para suportar a prova e superar os obstáculos.

De uma hora para outra o carro quebrou, a criança foi internada, passei a noite insone. Como conseqüencia cheguei atrasado na audiência, e meus pensamentos ficaram o dia todo embotado, além de muitas outras coisas.

Mas como tudo muda, o carro já foi consertado, a criança já está melhor, estou escrevendo lucidamente, e o que tinha para fazer já fiz.

Não perder a calma, é o segredo. Ter fé, é o segredo. Ter iniciativa, é o segredo. Ter pulso firme, é o segredo. Estes são os segredos para superar as dificuldades.

Não percamos a oportunidade, jamais, de ver lições em tudo o que acontece conosco.

Há um propósito para tudo o que existe debaixo do sol, assim disse o Eclesiástes.

E por último, não devemos esquecer aqueles que nos ajudaram em momentos difíceis.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Luzes no direito

Li o inteiro teor do recente voto do Ministro Eros Graus proferido no Habeas Corpus 84.078-7, que trata do direito do cidadão em aguardar em liberdade o julgamento de seus recursos.

Por ser direito que emana do artigo 5º, inciso LVII, o sentenciado só poderá cumprir pena imposta depois do trânsito em julgado da sentença.

O voto do Ministro foi digno de aplausos. Usou termos contundendes para reafirmar o valor da nossa Constituição.

De nada prestaria a Constituição se alguém fosse considerado culpado antes de manejar todos os recursos que a lei permite.

A Constituição está acima do juiz que a ela deve obediência. Os desafetos da Constituição precisam ser combatidos impiedosamente.

O Ministro citou o maior criminalista que o Brasil já conheceu, Evandro Lins e Silva: "Na verdade quem está desejando punir demais, no fundo, no fundo, está querendo fazer o mal, se equiparando um pouco ao próprio delinquente".

É necessário, segundo o magistrado, o desmonte implacável do discurso autoritário, das leis de ocasião, momentâneas, incendiárias, feitas para satisfazer ódios reprimidos e vinganças doentias.

A prudência do direito deve prevalecer contra a irracionalidade jurídica. "É bom que estejamos bem atentos, nesta Corte, em especial nos momentos de desvario, nos quais as massas buscam qualquer ética que irremedialvemente nos conduz "ao olho por olho e ao dente por dente. Esta corte deverá prestar o devido acatamento à Constituição", alertou Eros Graus.

Quando levantou a Constituição e a apresentou para todo o Brasil, o velho Ulisses Guimarães bradou: "Temos ódio da ditadura, ódio e nojo. Eis aqui nossa Constituição. Divergir dela, sim; discordar, sim; descumpri-la, jamais; afrontá-la, nunca."

Luzes no direito, é assim que definimos essa postura do Ministro. A obscuridade, a preguiça mental, o autoritarismo, o mandonismo e até mesmo a burrice de muitos operadores reacionários do direito precisam ser enfrentados por todos aqueles que querem transformar nosso país numa democracia jurídica, política, social, econômica e cultural.

A praga do celular nas audiências

O uso de celulares nas audiências virou uma praga.

Usa o juiz, usa o promotor, usa o advogado.

Às vezes a audiência é suspensa para que algum boçal possa atender a um chamado telefônico.

O engraçado de tudo isso é que a testemunha não pode atender celular, nem o reú, nem a assistência.

No Júri o jurado nem sonha em fazer o que os homens da lei fazem.

Já que o juiz, o promotor e o advogado atendem os celulares, todo mundo estar, a partir de agora, autorizado a atender também.

Se eles podem, as testemunhas podem, os réus podem, os policiais podem, todos ali podem. Vai virar um verdadeiro festival de toques de celulares.

Uns com a música do flamengo, outros com a música do corintians, outros com irritante "atende, atende o celular, atende, atende...", outros com o "amo você muito do tamanho do universo". E o beijo traz sonoridade ao ambiente.

Isso se chama princípio da isonomia, e estar albergada constitucionalmente. Se uns podem os outros podem também.

Quando o juiz começar a dar o exemplo, talvez a coisa mude, e a audência passe a ter a nobreza e a dignidade que se exige.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Primeiro a sentença e depois o julgamento

Quem já leu o conto infantil Alice no País das Maravilhas sabe que grande parte do livro narra a história de um medonho julgamento a que foi submetida Alice pelo Júri Popular.

A presidento do Júri era a Rainha de Copas, que tinha escolhido também os membros do Conselho de Sentença.

Alice respondia pelo crime de lesa-majestade, sem saber ao menos o que era isso. Alice estava sendo julgada pela sua própria inimiga.

Composto o Júri, a juíza grita: "Cortem a cabeça".

Alice protesta: " Mas, e o julgamento?"

A presidente do Júri, raivosamente, responde: " Primeiro a sentença e depois o julgamento".

Para a sorte de Alice, na hora em que iam cortar sua cabeça, ela acorda do tenebroso pesadelo.

Assim tem agido alguns julgadores. A presunção de inocência é letra morta na nossa Constituição.

O princípio é transmudado, criminosamente, em contra -princípio: "todos são culpados até prova em contrário".

O pior de tudo é que o condenado não tem a sorte que Alice teve, acordar antes da execução da sentença.

O mundo está cheio de rainhas de copas, enrustidos atrás da toga, carrascos da liberdade alheia.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Valdir Perazzo: o melhor orador do Acre

Quem seria o melhor orador do Acre?

Eu não tenho dúvida em responder: Valdir Perazzo Leite.

Alguém diria: "mas isso é só no Júri."

Não, ele é o melhor em todas as tribuna. Na judiciária, na política, na sacra. Suas características de orador o torna imbatível em qualquer arena.

Não é a toa que é vítima, por vezes, da perseguição e da inveja, essa maldita bruxa, pedadoga da mentira.

Sua voz límpida, seu argumento lógico, seu entusiamo arrebatador, seus ideais elevados, seus gestos firmes e poéticos, o silêncio bem medido, a coragem da palavra, fazem dele o melhor tribuno do Acre.

Sua oratória é grandiosa porque se aproxima de duas grandes artes: da arte musical e da arte poética.

Sou um estudioso da ciência retórica. Possuo dezenas de livros sobre ela. Conheço grandes oradores brasileiros. Mas me inspiro na oratória de Valdir Perazzo.

Fizemos juntos dois grandes júris. Ele brilha tanto que a luz que emite atingi a bílis dos medíocres.

É aquela velha história do sapo que pula sem motivo em cima do vaga-lume, e ao ser indagado do porque de tamanha violência com o pirilambo, respondia: "porque ele brilha".

Claro que temos outros oradores no Acre, mas da estatura de Valdir Perrazzo não temos. Ele é o melhor orador do Acre.

Qual a virtude maior?

Para Aristóteles, era a moderação.

Para Sêneca, era o autocontole.

Para Cícero, era a amizade.

Para Sócrates, era a coragem.

O homem perfeito é a soma de todas as virtudes. Impossível.

Carecemos de umas e somos portadores de outras.

A história foi construída pelos homens de coragem. Na religião, na política, no direito, na cultura, no pensamento. A falta dela, pára o mundo. Ou, se não o pára, o estaciona.

A coragem é o carro chefe, sem ela as outras virtudes não se manifestam. O homem bom deixa de ser bom. O justo deixa de ser justo. Pela covardia, a ausência da coragem.

A coragem, portanto, é a maior das virtudes. Não é a ausência do medo, a coragem é a ausência da covardia.

Sem a coragem não existiriam os profetas, os líderes, os revolucionários.

Antes de buscar qualquer outra virtude busque primeiro a coragem para que sua busca não seja em vão.

A Estrela da Manhã

Ela é toda graciosa, linda, de se admirar noite adentro.

Assim passei durante o sábado, olhando fixamente para ela, toda encantada, essa rainha bem vestida.

Brilha mais que todas as outras. É conselheira predileta da lua.

Muitos mistérios essa luz possui.

Tudo que encanta tem segredos que a alma anseia por descobrir.

O mais belo deste meu encontro com a Estrela da Manhã é que não a vi apenas com os olhos do corpo.

Uma frase martelou em minha cabeça o tempo todo, e foi aí que entendi o que Jesus Cristo disse a João, na Reveleção.

"Aquele que perserverá até o fim eu darei a Estrela da Manhã".

É um grande presente, que espera por aqueles que fitam seus olhos para cima, e que vêem que para além de nossas misérias existe um reino bem governado, de luz, paz, e amor, onde toca todas as canções, fazendo do reinado uma dança constante de louvor, de encontros, e de felicidade.

Fite seus olhos nela. Anseie por ela. E tenha-a pela promessa que foi feita.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Um torneio de críticas

Estávamos discutindo, no corredor do Fórum, sentença criminal condenatória proferida contra um ladrão que tinha se apossado de uma lata de leite.

As críticas surgiram aos magotes à pesada pena imposta ao réu.

Um dizia: "isso é um absurdo"; outro afirmava: "isso é o direito penal do terror"; emendava outro: " isso é o direito penal do mal"; e ainda outro: " isso é o direito penal do diabo".

Depois de todos dizerem algo, a doutora Salete foi a última: " isso é uma assassinato".

Sem dúvida que ganhou o torneio pela virulência da crítica.

Apenas me vi na obrigação de dizer: " Menos doutora, menos, não chega a ser tudo isso, foi apenas um atentado violento ao pudor".

Assim são os advogados, extremamente passionais.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O promotor bonzinho

"Há uma estirpe de delinqüentes enrustidos que sentam à nossa mesa como se fossem homens de bem". Ministro Eros Grau

Falou-se muito nos últimos dias em congestionamento de processos na Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Rio Branco-Acre.

O atraso no julgamento gera impunidade, já que o crime é esquecido e a prescrição aparece.

Mas só se fala em impunidade, esquecem também de dizer que o excesso de prazo para o julgamento atingi pessoas inocentes, que esperam o mais rápido possível sua absolvição pelo Conselho de Sentença. Temos inúmeros casos de pessoas absolvidas depois de penarem três ou quatro anos na cadeia.

O Tribunal do Júri é competente constitucionalmente para julgar os crimes dolosos contra a vida, quais sejam: homicídio, infanticídio, aborto e participação em suicídio.

Acontece que muitos promotores denunciam simples disparo de arma de fogo como tentativa de homicídio, e também simples lesão corporal como tentativa de homicídio, ou homicídio culposo, que não é da competência do júri, como homicídio doloso. Isso é responsável por 35% desse tão falado congestionamento e atraso na correta prestação jurisdicional, direito fundamental dos cidadãos brasileiros.

Por que isso acontece? Muitas vezes para mostrar no dia do julgamento que o promotor é bonzinho e justo. Pede a desclassificação do crime para disparo de arma de fogo, para lesão corporal leve, ou até mesmo a absolvição. Isso depois de ter gastado tempo e dinheiro com causas de competência de outros juízos ou até mesmo do juizado criminal.

Agindo assim, o promotor no plenário de julgamento aumenta a sua credibilidade para sustentar outras acusações, não raras vezes injustas.

Fica a mensagem no inconsciente dos jurados. "Olha, ele está falando a verdade, porque quando é para pedir pena mínina e até mesmo a absolvição, ou a desclassificação o homem pede mesmo. Se ele está pedindo a condenação agora é porque o negócio é certo."

Essa tática está com os dias contados pois advogados independentes e corajosos começam a reagir, explicando aos jurados como isso funciona.

Não quero dizer aqui que às vezes muitos promotores não tenham sinceridade neste proceder, mas a regra é a barganha. Isso é condenável, e o interesse coletico e cívico no reto proceder das instituições me faz divulgar publicamente essa estratégia execrável para a segurança jurídica do povo acreano.

O esperto X-9


X-9 é o apelido de um famoso delator da sociedade acreana.

Este cidadão matou o próprio tio e espertamente atribuiu a autoria a vários policiais militares, supostamente membros do esquadrão da morte.

Dos quatro acusados, um morreu antes de ser julgado, dois foram absolvidos pelo Júri Popular e o outro não foi nem submetido a julgamento devido as absolvições dos outros imputados, ou seja, foi impronunciado.

X-9 conseguiu acabar com a família dessas pessoas, que perderam dinheiro, sonhos e fé em nossas instituições.

Ligado a esse caso, X-9 associou-se criminosamente a acusadores e investigadores e montaram um flagrante contra a defensora pública Maria Queiroga, acusada de receber trinta mil reais para tentar mudar o depoimento de X-9.

Albergado pelo programa de proteção as testemunhas, X-9 anda pelo Brasil afora praticando crimes onde chega, impunemente.

Já disse e vou repetir, os acusadores do Acre, produziram os piores delatores do Brasil, desde a promulgação da lei da delação premiada.

A mãe e o pai de um dos acusados por X-9 não teve a felicidade de ver a emocionante absolvição do filho, morreram antes, devido a grande tristeza que tomou conta de suas almas, ao ver o rapaz que amavam inocentemente preso por um crime que não cometeu.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Davino Anastácio: pago para mentir


Sempre me posicionei com veemente repúdio contra a Lei que beneficia criminosos e testemunhas mentirosas em troca de delação premiada.

Desde cedo, nós brasileiros, nos insurgimos contra o linguarudo, o dedo-duro, o boca mole.
Em casa de gente decente, o irmão quando enreda o outro pega peia.

Escabrosas figuras históricas usaram esse expediente da delação para os mais diversos fins, mas nunca com o intuito de promover a justiça.

No mais da vezes os inocentes foram crucificados devido ao testemunho de algum mentiroso. Judas, Joaquim Silvério dos Reis, Calabar, são exemplos de personalidades que causam asco na humanidade inteira.

Aqui no Acre não é diferente. Produzimos, não tenho dúvida, os piores delatores brasileiros desde a promulgação da lei premiando bandidos de toda espécie. Cito Palito, cito X-9, como amostras de raça imunda.

Mas, o que me chama a atenção mesmo é uma figura chamada Davino Anastácio. Minha vida de criminalista está até um certo ponto ligada a dele. Ele é o algoz de inocentes, e eu sou o seu algoz.

Em dois júris que fiz, esse militar covarde, que vive no bem bom recebendo sem trabalhar há mais de 5 anos, testemunhou contra inocentes. O Júri absolveu aqueles que ele acusava.

O Tribunal do Júri, nas duas oportunidades, entendeu que ele cometeu o crime de falso testemunho. Mesmo assim, ainda continua no programa de proteção aos delatores, por mais tempo do que a lei permite, inclusive.

Toda vez que ele vem ao Acre chega acompanhado de muitos policiais federais, advogados e assistentes do programa. Exigem que ele testemunhe as escondidas, que não seja filmado, que seja tratado como lord.

Até quando o Estado continuará pagando este criminoso, que aliás é acusado de matar um cidadão no ano de 1992 e até hoje não foi julgado devido ao fato de está protegido pelo programa?

Até quando a Polícia o aceitará em seu quadros? Está na hora de expulsá-lo, e espero que ele seja submetido ao Conselho Militar o mais rápido possível, por que ninguém, na atualidade, macula mais a imagem da Corporação do que Davino Anastácio.

A vez de Davino está chegando. A justiça divina é implacável.



segunda-feira, 7 de abril de 2008

Meu sapato marrom

Gerson Boaventura


A fato aconteceu na cidade de Cruzeiro do Sul, onde atuava como Defensor Público.

Em julho de 2005 minha casa foi furtada, tendo o larápio subtraído inúmeros bens. Entre os produtos que foram furtados estava um sapato de cor marrom.

Um mês depois fui intimado para efetivar, no plenário do Tribunal do Júri, a defesa de um réu que se encontrava há mais de um ano preso.

Depois de uma longa conversa com o réu, o orientei que fosse vestido, no dia do julgamento, com a melhor roupa que ele tivesse.

Tal orientação eu sempre adoto para réus portadores de tatuagens, pois como se sabe no júri a má aparência contribui para uma condenação...

No dia do julgamento, seguindo a minha sugestão, o réu foi conduzido até o fórum daquela Comarca muito bem vestido.

Para minha surpresa ele calçava o meu sapato marrom que fora furtado da minha residência. Então reagindo impulsivamente àquela cena, vociferei: - Êpa! Este sapato é meu! Foi furtado lá de casa, como ele foi para em seus pés? O desconsertado réu passou a mão no rosto e disse:- doutor este sapato foi minha namorada que levou para mim... Eu não sei com foi que ela conseguiu não.

Depois disso o gracejo foi geral, a promotora e o juiz não se agüentavam de tanto rir...

Por fim, o júri não se realizou pela ausência de uma testemunha importante. E eu depois de uma investigação particular, descobri que o ladrão era o irmão do azarado réu. Então consegui recuperar parte da res furtiva, mas o sapato em questão acabei por "presentear" o réu.

Até hoje a promotora que iria atuar naquele julgamento relembra o fato e não segura o riso.

Gerson Boaventura é Defensor Público, vice-presidente da Associação dos Advogados Criminalistas do Estado do Acre - ACRIM

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A revolta do condenado

Escreveu o jornalista Sebastião Nery, que o réu foi condenado a trinta anos de reclusão por ter matado um bondadoso farmacêutico de uma cidade do interior do nordeste.

O promotor o chamou de besta fera do apocalipse, assassino diabólico, perverso arremedo de ser humano.

O réu ouviu tudo calado.

Depois de ser lida a sentença, ao passar por perto do promotor, já em direção ao carro que o levaria para o xadrez, o condenado voltou-se para o promotor e não aguentando ver aquela figura sinistra, desfechou:

"Está satisfeito agora, seu 'fila' duma égua?"

O julgamento de Rosa Capivara

Conta Pedro Paulo Filho, um respeitado tribuno brasileiro do Júri, que um promotor novato terminou assim a acusação contra Rosa Maria, que por infelicidade tinha o apelido de Rosa Capivara.

"Essa mulher não pode sequer ser tratada como gente. Não é gente nem no nome. Tem nome de bicho, Rosa Capivara."

O advogado de defesa, vendo a agressão que sofria sua cliente, na sustentação oral criticou a postura do promotor.

Nem a vítima nem o reú devem ser tratados com tamanho desrespeito. O processo criminal envolve lágrimas de ambos os lados. Os autos não são apenas um amontoado de papel. Ali tem dor, revolta, choro, desespero, indignação.

Com muita singeleza o advogado soube resgatar a dignidade da acusada. E sublimamente versejou:

"Rosa Maria, teu nome
Tanta beleza traduz
Rosa, rainha das flores
Maria, mãe de Jesus."

Ganhou o júri com essa poesia, e mostrou a todos o respeito que deve prevalecer nos julgamentos. Segundo os romanos o réu é coisa sagrada, reus res sacra est.

O caráter volúvel dos juristas

Francesco Carrara foi um dos grandes nomes da advocacia criminal, que viveu no século XIX, na Itália.

O advogado, ao fazer a sustentação oral no júri, recorreu a uma citação do grande criminalista, que o ajudava muito na absolvição do réu.

Em determinado momento, o promotor pediu um aparte ao advogado, o que foi concedido de imediato.

"Doutor, sua edição está defasada, o Carrara se retratou nesta mais nova edição, não pensando mais a respeito do assunto como no passado. Veja o senhor mesmo aqui no livro o que ele diz".

O advogado pegou o livro e viu realmente que Carrara tinha mudado de posição.

Num rasgo de indignação passou a desferir doestos terríveis contra Carrara.

"É um traidor, volúvel, sem caráter, que um dia diz uma coisa e outro dia diz outra."

E dirigindo-se ao jurados falou: "Não acredite nessa mudança de Carrara, senhores jurados, talvez ele tenha sido subornado por um ricaço que desejava a punição de um pobre coitado."

E aproveitou a situação para criticar o direito penal que só pune os miseráveis, as leis feitas pelos ricos, a desigualdade social, os intelectuais sem preocupação social, a carestia de vida, a exploração do homem pelo homem.

O crime cometido pelo acusado já tinha sido esquecido pelos próprios jurados.

E num gesto teatral pegou a edição nova de Carrara que estava na mesa do promotor, olhou, fez uma cara de nojo e arremessou-o pela janela.

Os jurados não gostaram da mudança de opinião do grande criminalista, e aceitaram a proposição do advogado, olhando-o com simpatia, e absolvendo o acusado à unanimidade.

Bem, foi o próprio Carrara que numa frase infeliz disse, certa vez. "Na cátedra sou professor, no Júri sou advogado."

Ou seja, como jurista ensinava uma coisa, mas como advogado praticava outra.

Muitos recorrem a Carrara para justificar suas incoerências. "Não, lá eu sou professor, aqui eu sou promotor, por isso mudo de posição." "Não, lá eu sou professor, aqui eu sou juiz, tenho opinião diferente".

E assim vai. Realmente é difícil acreditar em pessoas assim. E já vi muitos jovens apaixonados pelo direito desiludidos com esse tipo de gente.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Parabéns, Ilzamar Mendes e Altino Machado!

Acompanhei o desenrolar da repercussão envolvendo a entrevista dada ao jornalista Altino Machado pela mulher de Chico Mendes, Ilzamar Mendes.

Fiquei chocado com o fato de nossa Amazônia se encontrar tão desprotegida, devido ao desprezo devotado a ela na prática.

Fala-se em preservação, mas ela está sendo destruída com o apoio dos antigos companheiros de Chico Mendes, dos falsos, pois os verdadeiros continuam sua luta.

Altino Machado vez com que a voz de Ilzamar ecoasse por todo o Brasil.

A fonte que irá garantir a preservação da Amazônia não virá da política, nem da lei, mas da espiritualidade.

Os que têm o poder pelo poder se uniram ao machado, a motoserra, ao pasto, a fumaça, aos cobiçadores nacionais e internacionais. Falam de sustentabilidade, mas assopram na brasa que queima nosso verde.

Enquanto os homens que dirigem a Amazônia não beberem da verdadeira fonte que garante sua preservação, estarem a ouvir o choro das árvores, dos animais, das águas, dos seres encantados que nela ambitam.

São atitudes como a de Ilzamar e de Altino Machado que trazem luz, força, e vontade de lutar pela preservação de nosso Santuário. Os cavaleiros amazônidas estão a reagir.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Minha palavra final. Não sou político, sou advogado


Esqueçam-me como político, por favor! Não sou candidato a nada na política.

A política não me move, a política não me comove. A política, na verdade, só me tem trazido problemas.

E ela só tem me trazido problemas porque tenho desobedecido uma promessa que fiz em passado remoto: que seguiria a carreira de advogado criminalista, o grande sonho da minha vida desde pequeno, e, que se conseguisse se firmar nela não pensaria jamais em outra profissão.

Mas sempre vinha um, mas sempre vinha outro, e mais outro, e outro mais e ficavam me incentivando e, com isso, quando analisava-me, estava metido nela de novo.

Sempre soube o que quis. Porém, a caminhada é dialética, vai no fluxo e no refluxo, na tese e na antítese. E vivi esse processo, na verdade, um drama, como poucas pessoas já viveram. Sofri, não posso negar.

Esse meu posicionamento é a síntese. Não quero mais saber de política. O que eu quero, eu já disse, é a advocacia, o grande amor de minha vida.

A partir desta decisão, qualquer nota me envolvendo em processo político, não corresponderá à verdade.

Quero sim, continuar na vida pública e servindo ao povo, lutando pelos direitos, pela justiça, pelo respeito às leis, mas em outro front, no qual sirvo melhor, com mais competência, com absoluta responsabilidade, com suprema sinceridade e, portanto, realizando-me e encontrando-me comigo mesmo. Esse é meu posicionamento final.

Por favor! Esqueçam de mim como político. Esse ser, já estranho, não existe mais em mim, já foi exorcizado. Na verdade, está enterrado.

Mas, se algum dia... Mas vai custar.

AMIN KONTAR: O Santo de Tarauacá


"Que o Castigo, se assim posso exprimir, fira tanto a alma como corpo". Michel Foucault

A História se passou em Tarauacá, na então chamada Vila Seabra.

Na terra que me viu primeiro, uma bárbara injustiça aconteceu.

Se Michel Foucault tivesse conhecimento desta punição, com certeza teria incluído em seu livro Vigiar e Punir, que conta a história da insanidade do homem na apuração dos fatos criminosos.

Foi nos idos de 1918. Um jovem descendente de turco - segundo os mais velhos, um belo jovem - passava em frente a casa do prefeito de Tarauacá, quando viu a casa do Intendente Cunha Vasconcelos pegando fogo, que depois se soube, foi devido a explosão de uma dinamite. Logo se assustou com gigantes labaredas, e sai correndo, desesperadamente, do local, talvez já profetizando o que poderia acontecer.

Não custou muito para que algumas pessoas, querendo agradar e se aproximar da corte, apontassem o jovem AMIN KONTAR como o autor do incêndio.

O prefeito tratou de punir o suposto criminoso, e em conluio com o delegado e o chefe de polícia perpetraram as mais cruéis torturas contra o jovem, que sabiam ser inocente. Na verdade, o incêndio criminoso tinha como autor um rival político do prefeito, mas a punição de AMIN KONTAR serviria para mostrar a todos o poder daqueles que mandavam.

AMIN KONTAR foi colocado amarrado dentro de uma rede na delegacia, entre duas espadas afiadas, e a cada embalo, uma furada de cada lado em seu corpo e em sua alma de inocente.
Andou por cima de ferro quente, teve as unhas dos pés e das mãos arrancadas com alicate, e seu corpo, já em estado deplorável, foi arrastado e exibido pelas ruas da Vila Seabra, puxado por um cavalo, em um suplício público.

AMIN KONTAR é considerado um santo em Tarauacá, devido a sua morte como inocente. Sua tumba é a mais visitada, a mais prestigiada e a mais respeitada do cemitério da nossa cidade. Milagres acontecem por interferência deste santo popular.

Claro que não é um santo reconhecido pela Igreja Católica, mas não importa, o povo o canonizou. Diariamente pessoas vão ao seu túmulo e depositam flores, óculos, fraudas, camisas, lençóis, todo tipo de objeto, dependendo da natureza do clamor que se faça a ele.

AMIN KONTAR, o santo de Tarauacá, o padroeiro dos inocentes perseguidos.